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Alexandre Inagaki_

Editor do blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso, finalista dos prêmios iBest (2003, 2004, 2005), vencedor do prêmio internacional The BOBs, promovido pelo portal alemão Deutsche Welle em 2007, e citado em matéria de capa da revista Época como um dos oito 'blogs que ditam o rumo da internet nacional'.

O Dia em que a Música Morreu

17, julho de 2009, 16:13 | Colunas
O rock é celebrado dia 13 de julho, mas eu escolheria outra data.
Hoje, 13 de julho, é celebrado o Dia Mundial do Rock. A justificativa para a data: 13 de julho de 1985 foi o dia em que foi realizado o Live Aid, mega-concerto organizado pelo músico irlandês Bob Geldof, em prol dos famintos da África, reunindo dezenas de bandas em dois shows que foram realizados simultaneamente nas cidades de Londres, Inglaterra, e Filadélfia, Estados Unidos. Foi um acontecimento marcante, sem dúvida nenhuma. Mas eu, particularmente, teria escolhido outra data para essa celebração: 3 de fevereiro.
* * *
Final dos anos 50. O rock’n'roll mal havia inscrito suas primeiras notas na História da Música e já passava por uma crise criativa, ameaçando perecer no mesmo limbo de outros estilos como a rumba, o calipso, o twist e o cha-cha-cha. Como peças de dominó, um a um os maiores ídolos da época viram suas carreiras tombarem de um dia para o outro. Tudo começou com o alistamento de Elvis Presley ao Exército, em 1957. Depois, Jerry Lee Lewis viu sua carreira soçobrar após o escândalo causado por seu casamento com uma prima de apenas 13 anos de idade. Enquanto isso, Little Richard encontrara “a luz” e trocara o rock pela Igreja, e Chuck Berry terminou a década preso na cadeia, após ter sido flagrado com uma prostituta menor de idade.
O vácuo repentino de ídolos abrira espaço para a ascensão meteórica de três novos talentos: o genial Buddy Holly (e sua banda The Crickets), Ritchie Valens (intérprete do sucesso “La Bamba”, pioneiro do rock latino) e The Big Booper (DJ mais famoso da América e autor do hit “Chantilly Lace”). Durante o inverno de 1959, ambos participavam da turnê Winter Dance Party, consolidando junto aos fãs do meio-oeste americano o sucesso recém-adquirido (Valens tinha apenas 17 anos). Seguiram-se infindáveis, extenuantes viagens de ônibus, ao longo de estradas constantemente cobertas de neve.
Um dia, Buddy Holly jogou a toalha. Na madrugada de 3 de fevereiro de 1959, logo após um show em Clear Lake, no estado de Iowa, Buddy decidiu fretar um avião. Havia espaço para mais dois passageiros. Uma das vagas ficou com Big Booper, que, fortemente gripado, pediu para ser poupado de mais uma via-crúcis no indefectível ônibus dos músicos. A última poltrona, disputada no cara-ou-coroa, ficou com Ritchie Valens. Nem sempre quem ganha leva: poucos quilômetros depois de decolar, o avião caiu, certamente devido às péssimas condições climáticas, matando todos os seus ocupantes.
O rock tardaria a se recuperar de tantos baques. As paradas de sucesso da época foram assoladas por baladas melosas de nomes como Paul Anka, Pat Boone e Neil Sedaka. Até Elvis Presley entrou na onda; ao voltar das Forças Armadas, optou por consolidar sua imagem de galã de cinema, gravando basicamente musiquinhas “mela-cueca”. Apenas na metade dos anos 60 o rock resgataria sua vocação transgressora, graças a nomes como Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones. Contudo, os pioneiros, os responsáveis pelas primeiras faíscas, merecem ser lembrados: sempre que uma guitarra Fender ou Gibson for plugada em um amplificador, acredito que ao menos um isqueiro merece ser aceso em homenagem a esses caras - Buddy, Ritchie e Big Booper.
* * *
P.S.: O título deste texto faz referência à música “American Pie”, que Don McLean compôs em 1971 inspirado pelo que ele descreveu, em um dos versos deste sucesso, como “o dia em que a música morreu”.  Veja o vídeo no YouTube de “American Pie”.