Relatos Subterrâneos
Viajar de metrô é algo que faz parte do cotidiano do paulistano desde 1974, quando começou a operação comercial da Linha Azul, unindo os bairros de Santana e Jabaquara. Atualmente a cidade de São Paulo possui 61,3 quilômetros de linhas, através das quais circulam cerca de 2,1 milhões de passageiros em dias úteis. São números que impressionam, mas que não revelam as histórias por trás das estatísticas. Por exemplo: você sabia que, toda vez que o vagão do metrô pára entre duas estações (e você xinga a Deus e o mundo porque nunca sabe o que está ocorrendo e nem quando é que o maldito trem voltará a circular), isso ocorre porque muito provavelmente alguém derrubou um objeto dentro da linha? Foi o que me aconteceu outro dia.
Estava eu às 20 horas na estação Paraíso, pontualmente atrasado para um encontro com minha namorada. Aguardava eu o trem pouco antes da faixa amarela, quando outro paulistano, apressado como os demais habitantes desta cidade neurótica, esbarrou em mim. Resultado: o guarda-chuva que eu segurava caiu dentro da linha, seguindo fielmente os preceitos da indefectível Lei de Murphy: “Não há nada que não esteja ruim que não possa ser piorado”. Saí correndo em busca de um funcionário que pudesse retirar rapidamente o objeto de dentro da linha, e me dirigi até a SSO (Sala do Supervisor de Operações). Cada estação do metrô possui uma SSO, e é o funcionário que trabalha nessa sala o responsável pelas mensagens que ouvimos nos alto-falantes do metrô, do tipo “não dê esmolas dentro das estações”.
A supervisora de plantão daquela noite, Maria Luz, 43 anos, não tardou a me dar um sermão: “Por isso é que a gente pede pra que as pessoas aguardem os trens antes da faixa amarela!”. Paciência. Ela me avisou que eu teria de aguardar até que algum funcionário descesse para retirar meu guarda-chuva. A essa hora eu já antecipava o rosto furioso da minha namorada (já estava 15 minutos atrasado) e estava louco pra esquecer o guarda-chuva, mas Maria Luz me informou que a operação seria rápida. Após chamar um operador pelo interfone, a próxima providência da supervisora foi anunciar ao microfone do metrô: “Atenção - não ultrapasse a faixa amarela”. Ela olhava para mim enquanto pronunciava essas palavras.
A esta altura do campeonato, dois trens já tinham passado e eu nem queria mais saber do guarda-chuva. Mas enfim, quem está na chuva é para se molhar. Após oito intermináveis minutos, chegou Paulo Machado, 35 anos, responsável pela manutenção do Metrô. Informei-o onde estava meu guarda-chuva. Constatando que não seria necessário descer até os trilhos para retirá-lo da linha, Paulo entrou na SSO, vestiu um colete laranja e fez uma ligação para a Administração, solicitando permissão para a retirada de um objeto.
Conversando a respeito do incidente, Paulo disse-me que um gancho seria suficiente para a retirada do objeto. “Se eu tivesse que descer até os trilhos, teríamos que desligar a eletricidade de todas as linhas do metrô, e todos os 117 trens da nossa frota parariam até que seu guarda-chuva fosse retirado”, explicou. Caramba! Foi aí que descobri o porquê daquelas paradas que os trens fazem entre uma e outra estação: por causa de infelizes como eu, que derrubam objetos dentro das linhas. Quando há uma parada mais prolongada, e o ar-condicionado e as luzes são desligados, com certeza é porque há um funcionário que teve de descer até os trilhos. Segundo informações que encontrei no site do Metrô, a Eletropaulo alimenta as linhas com tensão de aproximadamente 88.000 volts.
A operação foi rápida: apenas o tempo de encaixar o gancho no guarda-chuva. Enquanto o próximo trem não chegava, perguntei a Paulo qual foi o caso mais inusitado que ele já tinha testemunhado sobre objetos caídos. “Houve um rapaz que inventou de mostrar a aliança pra noiva justamente em frente à linha. Ela deve ter ficado emocionada demais, e você pode imaginar o escândalo que ela fez quando derrubou a aliança. Até desligarmos a tensão e resgatar o objeto, levamos 30 minutos, atrasando todos os trens. A noiva acabou desmaiando de tanto nervosismo”. Ainda segundo o site do Metrô, a cada ano são atendidos em primeiros-socorros, pelos funcionários das estações, cerca de 12.635 pessoas, sendo 1.398 usuários acidentados, 9.327 usuários acometidos de mal súbito, 785 casos de embriaguez, 545 casos diversos (agressões, tentativas de roubo, distúrbios psiquiátricos e outros) e 850 auxílios a público externo.
Tudo resolvido, agradeci ao Paulo e a Maria Luz, que despediu-se de mim com ternas palavras: “Cuidado com a faixa amarela!”. Quanta simpatia. Após 25 minutos de atraso, finalmente peguei o trem que me levaria ao encontro de minha namorada. Dentro do trem, constatei os danos afligidos ao guarda-chuva: duas varetas quebradas. Poucos, diante do que minha namorada faria comigo. Para completar a história: na estação Luz (Sr. Destino devia estar se divertindo muito às minhas custas) o vagão parou e as luzes se apagaram. Enquanto imaginava Paulo descendo nos trilhos para retirar mais um objeto, antecipava as poucas e boas que teria de escutar naquela noite, e pensava se não seria mais convincente dizer que me atrasei porque os pneus do metrô furaram.
* * * * *
P.S.: Lembrei desse causo na semana passada, quando me dirigia ao escritório. Como de hábito, já estava atrasado quando fiquei preso entre duas estações do metrô e ouvi a seguinte justificativa nos alto-falantes do trem: “Estamos parados devido à retirada de um objeto nos trilhos”. Ao comentar esse causo no Twitter, houve quem me dissesse que essa é a frase que utilizam para disfarçar possíveis casos de pessoas que se jogaram nos trilhos do metrô, e que nunca são noticiados por temor de que outros suicidas em potencial tenham a mesma idéia. Naquele dia em específico não constatei nada que evidenciasse tais ocorrências, mas já li posts do Marco Aurélio (do blog Jesus Me Chicoteia) e Laércio Muniz (do blog Onipresente Ausente) descrevendo situações passíveis de censura pelo CVV. Diante desses relatos, minha historinha sobre o metrô soa tão ingênua… Sorte a minha.


