Uma abordagem simples
Quando eu estava na casa dos vinte e poucos anos, achava engraçado e esquisito ver alguém falar sobre ?filosofia de vida?, era algo que eu considerava distante, abstrato; alguém viver a vida se guiando pelo que outra pessoa ditou sabe-se lá quantos anos, ou séculos, atrás? Absurdo. Mas o absurdo dos vinte pode muito bem virar uma realidade aos trinta, comigo foi assim, um dia acordei e cheguei a conclusão de que era seguidor da Navalha de Occam.
Quando estava aprendendo a programar, um amigo disse que sempre mantivesse o princípio K.I.S.S. em mente. Não, não é uma referência à banda de rock, e sim o acrônimo de Keep It Simple Stupid (mantenha-o simples, estúpido)[1], um princípio que pode ser aplicado a um sem número de atividades, da programação, onde nasceu, ao planejamento estratégico, e que defende a simplicidade como algo a ser perseguido, e toda complexidade desnecessária, algo a ser evitado.
Achando interessante o princípio, parti em busca de sua origem, me deparei com o nome de Einstein e sua máxima de que “tudo deve ser feito o mais simples possível, mas nunca mais simples que isso”, e com o nome de William de Occam[2], um frei Franciscano que produziu seu trabalho filosófico na primeira metade do século XIV, e sua famosa Navalha. Curioso que sou, comecei a pesquisar, e felizmente encontrar, muito material a respeito.
A primeira coisa que se tem que aprender sobre a Navalha de Occam é que ela não é absoluta e deve-se ter o cuidado de não pesar a mão e ser simplista. O postulado da Navalha, também conhecido como princípio da parcimônia ou simplicidade, diz que “as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário”, e é comumente parafraseado como “todo o resto sendo igual, a solução mais simples tende a ser a melhor”.
“Para Occam, o princípio da simplicidade limita a multiplicação de hipóteses, não necessariamente de entidades. Favorecendo a formulação ‘é inútil fazer com mais o que se pode fazer com menos’, Occam subentende que teorias têm objetivos, nomina os de explicar e predizer, e estes objetivos podem ser alcançados mais efetivamente com menos pressupostos.”[3]
Você pode traduzir tudo isso como a filosofia do bom senso. A Navalha de Occam é amplamente utilizada nas mais diversas situações e você, também, provavelmente já a usou. Um excelente exemplo[4], é o do marcador de combustível de um carro que você pegou emprestado com um amigo. Ao ligar o carro e o marcador de combustível praticamente não se mover, o que é mais provável? Seu amigo lhe entregou o carro com o marcador de combustível quebrado, ou com o tanque seco?
O fato é que muitos dos acontecimentos que cercam a vida de todo e qualquer um de nós, já são suficientemente complicados por si, e não precisam de nossa ajuda para tornarem-se ainda mais. Cada variável que adicionamos ao que fazemos, aumenta o risco de erros mais adiante na estrada, ao reduzirmos estas variáveis a um mínimo necessário, criamos um ambiente mais controlado, simples e propenso ao acerto.
E na vida prática, onde se aplica isso tudo? Particularmente credito a Navalha de Occam o controle que assumi sobre minha ansiedade, foi graças a ela que finalmente consegui racionalizar meu pensamento ao ponto de isolar os efeitos desta ansiedade, e finalmente conseguir eliminá-la. Além disso, me amparo muito na Navalha para ser o mais direto possível em tudo que faço.
Ela é a resposta para você? Como toda filosofia, primeiro você precisa analisar, procurar conhecer mais a respeito, e se possível adequá-la à sua realidade. Se você não concordar, pelo menos em parte, com o que ela postula, não adianta muito tentar.
Mas pelo menos uma lição aprenda com a Navalha de Occam: não complique sua vida. ;-)
Informações adicionais:
- Como funciona a Navalha de Occam
- Ceticismo Aberto: A Navalha de Occam
Referências:
[1]O acrônimo K.I.S.S. pode ser encontrado como Keep It Simple Stupid (mantenha-o simples, estúpido), ou também como Keep It Short & Simple (mantenha-o curto e simples).
[2]O nome correto, em inglês, é William of Ockham. Em português se encontrará William de Occam e Guilherme de Occam.
[3]Citação da ?Internet Encyclopedia of Philosophy? da University of Tenessee at Martin (link)
[4]Exemplo adpatado do citado no artigo do item [3]


