O desrespeito nos tempos do Twitter
A falta de noção em 140 caracteres impressiona.
Se você não está vivendo embaixo de uma pedra ou algo parecido, com certeza já usa o Twitter, ou pelo menos ouviu falar bastante do serviço que está sendo citado em todas as mídias. Eu uso o Twitter desde 2007, e uso bastante a ferramenta, que pode trazer grandes resultados em pouco tempo. O segredo é saber usar o Twitter com moderação para não abandonar o seu blog, seu emprego ou sua vida. Talvez por esta razão, o Twitter esteja sendo rotulado por alguns jornalistas como se fosse um autêntico Blog Killer. Outro dia mesmo dia fui entrevistado sobre o suposto fim dos blogs, mas para mim isto não existe. O Twitter e os blog são duas ferramentas que usamos para o mesmo fim, que é a comunicar as nossas ideias. O microblogging tem vantagens e desvantagens em relação aos blogs tradicionais, e cada um tem o seu espaço, mas eu estou tergiversando, pois esta coluna não é sobre nada disto.
Dependendo da qualidade das pessoas que você siga no Twitter, o que acontece ali é algo mágico, uma leitura imperdível que se renova a cada minuto. Embora esta química aconteça em outros sites de mídias sociais como o Facebook, no Twitter a coisa é ampliada e você pode ler diversas pérolas, verdadeiras preciosidades em 140 caracteres. Infelizmente, o contrário também acontece. O desrespeito e a agressão estão cada vez mais comuns no Twitter, e este é o assunto deste texto.
Eu preferia falar sobre o lado positivo do Twitter, mas tem horas que mesmo alguém paciente como eu perde a cabeça. Eu deveria deixar isto para lá e aceitar as pessoas como elas são, mas em vez disto resolvi escrever este texto. Muitas vezes damos importância demais ao que é dito no Twitter, mas este é o assunto destas linhas é um daqueles casos clássicos em que é muito difícil simplesmente deixar passar.
No Twitter todas as reações são muito exageradas e a coisa pode passar de uma simples brincadeira até uma ofensa pessoal muito séria, assustando a quem não está acostumado com o ritmo. Pessoas públicas são alvos fáceis, outro dia mesmo a filha da Xuxa cometeu um erro de português em sua conta e sua mãe preferiu parar de usar o Twitter para não se aborrecer. O caso rendeu vários vídeos espontâneos em defesa da Xuxa e do seu suposto algoz. Quando alguém ataca outra pessoa no Twitter, a sensação deve ser semelhante a estar em uma praça pública, sob uma chuva de tomates. Mas até aí tudo bem, é parte da vida. A questão é: a Xuxa está aqui para se defender, mas e se a pessoa que está sendo atacada não está mais entre nós?
Uma das pessoas mais incríveis e generosas que eu conheci desde que comecei no mundo dos blogs foi a Marisa Toma, a minha querida amiga Ematoma. Nos conhecemos no primeiro encontro da Microsoft com blogueiros e, como tínhamos vários interesses e gostos em comum, ficamos muito amigos de primeira. Eu passei a escrever no excelente blog Objetos de Desejo e ela fez algumas coberturas de eventos para o meu blog, o Digital Drops. Nós tínhamos filhos e sempre conversávamos com muito orgulho sobre os nossos pequenos, mesmo morando a 400 km de distância.
Quando Marisa inexplicavelmente faleceu na semana passada, a dor pela sua perda e a tristeza pela sua morte absurda foi lembrada por amigos pessoais com uma homenagem silenciosa na forma de uma hashtag no Twitter, #SilencioporHoje. Quando soube da notícia terrível da morte da Marisa por intermédio de um amigo, desliguei o computador, esqueci o Twitter e fui chorar a minha tristeza em um canto qualquer. Depois pensei em como as coisas perdem a importância perto da morte e abracei muito os meus filhos. Quando finalmente voltei ao Twitter umas dez horas depois, percebi com tristeza que havia acontecido um verdadeiro circo de horrores a respeito. Além das piadas de péssimo gosto, algumas pessoas (se é que podemos chamá-las assim) ainda inventaram alguns retweets falsos, levando a entender que certas pessoas haviam falado barbaridades sobre a minha amiga.
Acredito que este é o pior tipo de covardia, se esconder atrás de outro nome para ofender os outros. O desrespeito demonstrado ultrapassou e muito qualquer limite de sanidade. Quando uma pessoa que a gente adora morre e alguém que nunca a conheceu vem fazer uma piada idiota e sem sentido sobre o assunto, a revolta é muito grande. Eu estou falando como amigo, mas pense na família de Marisa, que já tinha que lidar com a sua enorme dor e pesar, e ainda teve que ler este monte de lixo que sendo publicado a cada minuto no Twitter.
A conta de Marisa no Twitter foi devidamente protegida e depois bloqueada, mas nem isso acabou com a verdadeira tempestade de ataques vindos de pessoas que nunca sequer a conheceram. Em pouco tempo o tom jocoso estava sendo reproduzido em blogs ou veículos de comunicação, nos quais pessoas sensacionalistas e sem qualquer vestígio de caráter soltavam o seu veneno contra alguém que não podia se defender. Nas palavras do meu amigo Jonny Ken: chegamos ao cúmulo de julgar toda vida de uma pessoa por causa de 140 caracteres.
Uma amiga em comum me disse que tem pena de quem nunca conheceu a Marisa e eu também concordo, porque ela era uma pessoa sensacional. Muitos sabiam disto e respeitaram o voto de silêncio simbólico feito pelos seus amigos e o luto da família. Só que outros se julgaram no direito de condenar alguém sem saber absolutamente nada sobre o assunto em questão, transformando tudo em uma piada de quinta categoria. Estas piadas são desrespeitosas e absurdas e demonstram uma total falta de humanidade, e as pessoas que as escreveram são seres vazios por dentro, pelos quais não dá para sentir nada além de um profundo desprezo. E eu adoraria dizer que todo mundo já esqueceu no assunto e está falando na polêmica do momento, mas se você for ao Twitter neste instante e procurar pelo apelido da minha amiga, vai ver que a coisa continua.
Os falsos de caráter precisam tomar muito cuidado com o Twitter, pois ele é como um espelho, um elixir da verdade que mostra a verdadeira face do seu proprietário, mesmo que a conta seja falsa. Uma pessoa pode mentir a respeito de si mesma durante um bom tempo, mas a verdade sempre acaba vindo à tona. É como diz a maravilhosa letra do profeta Bob Marley, Get Up, Stand Up: você pode enganar algumas pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas todo o tempo.
Preciso lembrar de algo que o meu amigo Gilberto Knuttz citou em sua excelente coluna desta semana. Estas pessoas que perseguem os outros sem qualquer motivo no Twitter ou em qualquer outro site da Internet, só fazem isto porque estão protegidos atrás dos seus computadores. São todos corajosos e valentes, mas a uma determinada distância. Eu só queria ver estas pessoas fazendo isto ao vivo, na frente de qualquer amigo ou amiga da Ematoma. É bom avisar logo que eu parto para a briga com qualquer um que falar mal dela, seja no Twitter ou aqui fora.
Para mim foi um grande privilégio e uma honra ter sido amigo de Marisa mesmo que por tão pouco tempo. Onde quer que você esteja, descanse em paz minha amiga Marisa, e saiba que você vai fazer muita falta neste planeta. As saudades de quem te conheceu são para sempre.



