Opinião: Os pregadores do fim da blogosfera
Eles insistem em dizer que o fim da blogosfera está próximo, mas isso não faz o menor sentido.
Aristoptarco Wanderley chegou à praça como fazia todos os dias, há mais tempo que os colegas ali feitos podiam lembrar, como todos os dias, ele trajava uma bata surrada. Limpa, mas surrada. E trazia às costas seus maiores companheiros, o caixote que lhe servia de púlpito e cadeira de alumínio com tiras de nylon, que lhe ajudava a descansar as costas cansadas quando a voz começava a falhar.
Subiu no caixote e gritou a plenos pulmões:
´CORRÃO* o fim está próximo!! É o fim minha gente, é o fim!! Os blogs e a blogosfera vão acabar, o fim se aproxima!!`
Apesar de à primeira vista parecer difícil, é muito fácil ser um Aristoptarco. Ele é o cara que não faz nada além de se queixar de tudo e de todos, e quer de toda maneira se tornar ´o` cara, ele dorme sonhando com o dia em que os blogs e a blogosfera acabem para que ele possa subir no caixote e dar seu último grito: ´Estão vendo!! Eu não disse que ia acabar??`. Ato contínuo, ele chutará tudo para o alto e irá começar a entregar o currículo a toda e qualquer empresa que por ventura necessite de um ´analista de tendências`, em anexo vai colocar uma cópia, com link, do seu artigo de dois anos atrás, em que ele previa o ocorrido, publicado na comunidade do Orkut ´Profetas Modernos de Praça`.
O fim de Aristoptarco é triste, ele não conseguirá o emprego de analista de tendências, já que explicaram a ele um acerto em dois anos não chega a impressionar. E sabe lá Deus onde ele vai aproveitar seus gritos. Muito provavelmente, ele vai procurar outra coisa para o fim profetizar, afinal, quem sabe se da próxima não dá certo. Ou então, quem sabe, fazer algo digno como vender picolé na praia.
Como dizem meus amigos paulistas ´sim, sim`, sei que a história acima é meio patética, mas não havia como não sê-lo. Há pelo menos dois ou três anos que volta e meia o assunto ´fim dos blogs e da blogosfera` vem à tona, e sempre, sem exceção, com a mesma ladainha.
Então deixe que eu explique de forma bem clara, os blogs não vão acabar tão cedo, simplesmente porque não se trata de um site ou empresa que deixa de operar, e sim um método de publicação que atende inúmeros nichos. E a blogosfera também não vai acabar porque também não é algo centralizado que deixa de existir ao se remover o núcleo. O universo da blogosfera é, em essência, um grupo enorme de micro-universos que giram em torno de assuntos e/ou indivíduos distintos, de forma caótica e quase sempre desordenada, que se modifica e renova com uma velocidade incrível, o que lhe garante longevidade.
As ferramentas mais recentes, que em tese seriam responsáveis por trazer este fim, na realidade mais ajudam que atrapalham. Se há um problema sério na blogosfera, como um todo, é a geração de ruído desnecessário. Ferramentas que se adéqüem melhor ao anseio deste ou daquele editor tendem a permiti-lo uma produção de melhor qualidade no meio mais adequado, o que elimina parte do ruído e todos ganham.
Não digo que se ignorem todos que preguem o final de algo. Se você cruzar com um destes pregadores, gaste dois minutos escutando o que ele tem a dizer. Se o que ele disser realmente faz sentido, ótimo! Leve o pensamento consigo, reflita e faça sua cabeça a respeito, mas sempre leve em conta a possibilidade de quem está falando ter segundas e terceiras intenções e a de estar destilando meias verdades para provar um ponto. Mas, se for só mais uma ladainha repetida, sorria e siga em frente! É só o doido do Aristoptarco pregando novamente.
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Apesar de inspirada pela matéria do caderno Link do Estadão, a crítica aqui não se dirige, em absoluto, ao jornal, que fez um trabalho correto repercutindo o assunto sob vários prismas.
O Aristoptarco é uma figura fictícia.
* A grafia de ?corrão? está propositalmente errada, é uma brincadeira com o termo que praticamente já virou gíria no Twitter.



