Reflexões sobre um cabelo branco
Na manhã desta última segunda-feira, depois do banho, fazer a barba, me vestir, foi a hora de pentear o cabelo. E, para a minha surpresa, quem estava lá? Sozinho, no meio de uma multidão de fios castanhos, lá estava um fio, um único fio de cabelo branco.
Confesso que fiquei em extâse. Um misto confortável de fascínio e assombramento tomou conta de mim.
O fascínio veio do “ver o tempo passar”, ali estava a comprovação [que poderia muito bem ser apenas química/genética e não temporal] de que o tempo estava passando. Até então, ter 24 anos era muito trabalho e muita diversão, pouco tempo para dormir, muito riso, dor nos pulsos e algumas preocupações. Uma vida normal e feliz de quem finalmente encara essa brincadeira [muito séria, por sinal] de ser adulto.
Mas, tive a prova do tempo passando a partir daquele fio branco no meio do meu cabelo.
O assombramento veio pelo mesmo motivo, acrescido de crendices e costumes populares arraigados à minha capacidade argumentativa e contemplativa. Rugas, marcas de expressão e cabelos brancos são os sinônimos mais diretos de velhice na nossa sociedade ocidental e não deveriam aparecer nos jovens. Pensa-se que nada traduz mais a sua idade do que uns fiapos brancos no topo da cabeça, ou umas marquinhas na testa quando não se está sorrindo. Então lá se vão pinturas e cremes e esforços mil para esconder aquilo.
E por “aquilo” leia velhice, essa palavra proibida, transformada em terceira idade, ou ainda, melhor idade. Acho justo e válido o esforço de tirar da velhice a aura apocalíptica, mas quem já leu O Animal Agonizante ou O Homem Comum, do autor americano Philip Roth, sabe que esta, a velhice, é apenas um passo necessário e inegável.
Comentei com um amigo sobre o fio invasor e ele foi seco: “não ligo para cabelos brancos, já que desde os 17 anos me aparecem uns”. Para ele, um fato tão extraordinário era apenas mais uma coisa da natureza de todos os dias. Para mim não. Para mim aquilo era fascinante e assombroso.
Longe de ter medo de ficar velho e de criticar aqueles que querem enganar o tempo, minha maior alegria ao ver o tal cabelo branco foi pensar que ele seria resultado dos meus últimos esforços, dos trabalhos varando a madrugada, das preocupações e demandas, dos compromissos. Vindo de uma família que valoriza, acima de tudo, o esforço e a dedicação para ter uma vida estável e bem sucedida, o tal fio de cabelo branco me fez pensar imediatamente nas palavras doces de minha avó materna, sempre que eu respondo o “Como vai a vida, meu filho?” dela com um “a vida vai bem, vó, com muito trabalho”: “trabalhe, meu filho, trabalhe”.
Ali, na frente do espelho, aquiesci, arranquei o tal fio, escovei os dentes e fui para mais um dia de lida. Há coisas das quais não se pode, e muito menos se quer, fugir.


