Um homem que exerceu a medicina por 74 anos
Felício Falci, um cirurgião geral que orgulha os amigos, a família e o Brasil.
Meu avô faleceu na quarta-feira, dia 30 de setembro, aos 97 anos de idade. Mais do que uma pessoa amada da minha família, quem partiu deste mundo foi o símbolo de uma medicina ética que parece até utópica hoje em dia. O meu avô sempre foi o maior exemplo de integridade e humanidade entre todas as pessoas que conheci ao longo de 39 anos neste planeta. Eu tenho muito orgulho de levar comigo para qualquer lugar que eu vá o nome da família Falci, da cidadezinha de Casaletto Spartano, na Itália, de onde meus bisavós vieram para morar em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Meu avô veio morar no Rio, se formou em 1935 pela Faculdade Nacional de Medicina e exerceu sua profissão durante 74 anos, um exemplo de cidadania para qualquer pessoa. Em sua trajetória de cirurgião geral, ele se tornou um imortal pela Academia Nacional de Medicina, onde era Membro Honorário por mérito exclusivo de sua eterna e vigilante vocação para salvar vidas. Ele também era membro emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e participou do Conselho de Ética do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Dr. Felício Falci foi pioneiro de várias técnicas cirúrgicas e era reconhecido no mundo inteiro como um dos maiores cirugiões do Brasil. Ele chegou a ser chamado de ?Cirurgião do Século?.
Além de suas técnicas cirúrgicas, o que fazia a diferença no Dr. Falci era a sua humanidade. Ao contrário do que acontece com muitos médicos hoje em dia, ele pensava somente no ser humano que estava na sua mesa de cirurgia, e não se ele tinha ou não um plano de saúde para pagar a conta. Ele nunca pensou em ganhar dinheiro com a medicina e sempre operou a quem não tinha condições de pagar com a mesma dedicação de quem operava a sogra do ex-presidente da República. Seu objetivo era salvar vidas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes, nunca enriquecer com a profissão. Como disse o meu irmão Dado Ellis no seu blog, ele sempre defendeu o lado humano da medicina, ao invés do financeiro.
O seu trabalho como diretor de cirurgia no Hospital da Lagoa foi reconhecido e honrado no ano passado com a inauguração do novo centro cirúrgico que ganhou o seu nome, em um evento que contou com a presença do Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e eternizou para sempre a presença do Dr. Felício no hospital pelo qual ele tanto trabalhou desde 1962, até ter sido aposentado em 1990 de forma arbitrária e injusta pelo recém-empossado presidente Fernando Collor. O seu conhecimento não irá morrer nunca, porque ele se tornou professor e formou inúmeros cirurgiões que estão fazendo um excelente trabalho nos dias de hoje. Ele trabalhou até praticamente o fim da sua vida na Santa Casa e no Hospital da Gamboa, realizando operações até os 96 anos de idade.
Eu chego a perder a conta das coisas que o meu avô me ensinou quando eu era criança e que ajudaram a moldar o meu caráter. Ele e a minha avó Eleny me levaram para ver Star Wars e Superman e isto mudou a minha vida para sempre, sem qualquer exagero. Meu avô também fazia questão de me ensinar a apreciar a música clássica, me levando a concertos de fim de semana no Theatro Municipal, e me incentivar a ler, dando livros e o bom exemplo, se dedicando de forma voraz a ler os seus autores favoritos.
Meu avô era uma daquelas pessoas raras que todo mundo adora, pois além de ser extremamente simpático, ele fazia questão de tratar a todos da mesma forma cordial, sempre dando atenção e fazendo tudo o que estava ao seu alcance para ajudar dentro do possível e do impossível.
Eu citei o meu avô na coluna que escrevi ano passado em homenagem a outro grande mestre, Oscar Niemeyer, lembrando que eu sempre dizia que iria ser médico em homenagem ao querido Dr. Felício, até entender o que ser médico realmente significava.
Há alguns anos pensei em entrevistar o meu avô e tentar documentar em vídeo tudo o que eu pudesse sobre ele. Com a correria da minha vida, infelizmente acabei perdendo esta chance, mas ainda tenho muito o que dizer sobre esta figura exemplar que tinha uma sabedoria que acrescentaria doses imensas de humanidade, dedicação ao estudo e à técnica aos futuros médicos e cirurgiões do mundo inteiro, assim como fez bem aos seus inúmeros alunos.
Suas lições de vida continuaram até o nosso último dia juntos. A magia de envelhecer com dignidade, de rir de suas próprias dificuldades, de renunciar de forma definitiva a qualquer tipo de sofrimento e, acima de tudo, manter o bom humor em qualquer circunstância. Foi uma tristeza perder a sua companhia, mas ao mesmo tempo fico tranquilo sabendo que ele teve uma vida saudável e completa, da qual se despediu com muita dignidade.
Eu tenho muitas saudades do Dr. Felício Falci, um dos maiores cirurgiões do Brasil e meu vovô querido. E um orgulho infinito que não cabe no meu peito de ter conhecido e convivido com um ser humano tão digno e especial quanto ele. E assim dizem todos os que o conheceram.



