Sincretismo religioso, fé e marketing
Depois de estudar diversas religiões diferentes, resolvi desvendar por que uma certa igreja evangélica neopentecostal chamava tanto a atenção dos jovens…
Fui batizada na Igreja de Santo Antônio, em Santo Antônio do Pinhal, aos 2 meses. Mais tarde, fui morar numa cidade do interior de São Paulo com a minha avó, onde frequentava procissões, novenas e rezava o terço de joelhos, com uma vela na mão. Mas isso não me impedia de, na semana seguinte, eu estar no meio de um terreiro de Umbanda, vendo o Caboclo baixar em uma senhora de idade, que fumava charuto e bebia pinga. Paralelo a tudo isso, minha avó era benzedeira, daquelas que tiram mal olhado, quebrante, dor de cabeça… Então ela decidiu me ensinar a benzer também.
Já em São Paulo, estudei em colégio de freira, de padre… Cantei com o coral da igreja músicas em latim em dezenas de missas e casamentos. Depois fiz parte de um grupo de escoteiros budista, no qual aprendi várias orações em japonês, além da importância da meditação. Aproximadamente aos 17 anos, apaixonei-me pelo Candomblé. Fiquei amiga do Pai Cido de Oxum Ein e comecei a estudar todos os costumes dessa religião. By the way, sou filha de Nanã!
Aos 21, para terminar o curso de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, escrevi, juntamente com Amanda Figueiredo, um livro reportagem sobre a evangélica neopentecostal Bola de Neve Church, fundada pelo publicitário Rinaldo Pereira, em 1994. Durante aproximadamente um ano, frequentei essa igreja como fiel, para entender como uma doutrina tão rígida (na qual relações sexuais fora do casamento não são permitidas e os fiéis são orientados a casar-se apenas com outros fiéis) podia ter levado para lá amigos outrora tão liberais.
Frequentei o ministério Nova Vida, que cuidava de manter longe do vício usuários de drogas, alcoólatras, viciados em jogos e também homossexuais (considerados pela doutrina tão doentes quanto os dependentes químicos); as células (grupos de oração organizados nas casas de alguns fiéis); o culto feminino (especial para mulheres) e os cultos tradicionais.
Como o tema da quarta-temática dessa semana é religião, não poderia deixar de colocar aqui uns trechos bacanas do livro “Bola de Neve, Uma Avalanche na Fé“. Ele foi escrito em 2007… Penso em disponibilizar para download em breve!
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Chega aí, vem casar!
Se na forma a pregação de Rina [pastor criador da igreja] soa mais moderna que a usual, valendo-se de gírias conhecidas de seu público, no conteúdo ela é tão tradicional quanto a de outras igrejas neopentecostais. Revestido de liberdade, o discurso elaborado pelo pastor não deixa de carregar conservadorismo.
“Viram só? O pessoal está feliz, casado. Jesus não quer ver nenhum de seus filhos sozinhos, sem companhia no sábado à noite. Namoro cristão também é muito louco. Se você já encontrou seu varão, sua varoa, chega aí, vem casar aqui na Igreja, não precisa colocar gravata borboleta. Agora, quem namora alguém que não é cristão e não quer se converter, aí já é diferente. Quem namora gente de fora, que não é de Deus, pode ficar depois do culto que eu explico como as coisas funcionam. Mas vocês sabem, não vai rolar. Não forcem o que não é da vontade do Senhor”.
Da vaidade à submissão
“Somos mulheres de Deus e sabemos que o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher foi criada para o homem. Devemos ficar submissas se quisermos construir um lar de fé. Essa é a ordem de Deus e se não for reconhecida, Deus também não será reconhecido” - pastora Denise Gouveia no Culto Feminino do dia 28 de setembro de 2007, na Bola de Neve Church.
O perdão
Denise diz que a mulher de Deus não é aquela que abandona o marido que a agrediu, mas sim aquela que o pega pela mão, ora e oferece ajuda. Segundo a pastora, uma mulher não tem o direito de desfazer um lar que Deus permitiu que fosse criado.
“Se você sofre agressão do seu marido, ore para que ele abandone o lar, pois assim você não terá em suas costas a culpa de ter desmanchado uma instituição sagrada. Conheci uma irmã que teve seu marido tomado pelo demônio. O primeiro passo que ela pensou em tomar após ser agredida foi deixar seu lar. Oramos e conseguimos fazer com que a fé divina afastasse o demônio de sua casa. Hoje, com a glória de Deus, que é pai, ela e o marido vivem bem, no amor do Senhor, e é assim que deve proceder uma mulher de Deus” - afirma a pastora.
Do pó à fé
Marcos*, um rapaz alto, de cabelos encaracolados e cerca de 20 anos, é dependente de maconha e cigarro. Ele fala das dificuldades que enfrenta para largar o vício: “Meus amigos vão lá em casa me oferecer. Me chamam pra sair quase todo dia depois da faculdade. Mano, tem dia que eu não agüento, é muita pressão.
“Meu, se eles te chamam para balada não são seus amigos. Esquece tudo isso. Você tem que ficar longe dos amigos do mundo. Pega o telefone do pessoal daqui, sai com pessoal daqui. Se for preciso, muda de faculdade, de turma… Fica longe do povo da ativa, meu, senão vai ficar difícil pra você, cara” ? aconselha um dos líderes do grupo masculino.
Por que a Bola de Neve?
Se a Bola de Neve faz uso da mesma doutrina da Igreja Renascer, por que os jovens de classe média que freqüentam a primeira não se fidelizaram à segunda anteriormente? Por que o discurso na Bola de Neve tem tamanha aceitação entre esses jovens que dificilmente haviam cogitado converterem-se evangélicos em outra igreja? Segundo José Rubens Jardilino, doutor em ciências sociais pela PUC com uma tese sobre religião e pós-modernidade, o que diferencia a Bola de Neve das outras igrejas é o marketing direto para os jovens. “A Bola de Neve tem um discurso para um público específico: os jovens que gostam de esportes, que cultuam o corpo. Tudo é preparado para uma segmentação de mercado. A decoração, o discurso, tudo é feito para deixar aquele público à vontade. Não se trata apenas de uma igreja, é um lugar onde eles se identificam, se encontram, fazem amigos”, afirma Jardilino.
Além de ser um ponto de encontro de jovens com interesses em comum e de ser agradável a eles, a oferta de ajuda para livrar o fiel daquela situação que mais o aflige também traz adeptos. “Não é exclusividade da Bola de Neve oferecer ajuda para livrar as pessoas dos vícios e problemas. Isso faz parte do discurso protestante das igrejas neopentecostais, as evangélicas criadas após os anos 1960. Eles prometem resgatar o sujeito da perdição. Como o período da adolescência é de experimentação, há uma maior pré-disposição às drogas. A Bola de Neve otimiza o discurso das neopentecostais e busca os jovens com esses problemas, que não são poucos”.
Jardilino explicou que o fato do discurso da Bola de Neve seguir o da Renascer, com os mesmos paradigmas, não interfere na hora da fidelização do jovem. “Não é o discurso que traz o jovem, é a imagem. Os outros fatores são tão atraentes, ele é tão bem-vindo, que o discurso conservador não parece tão ruim. A Bola de Neve vende uma imagem e eles compram. É como alguém que compra algo por R$ 9,99 e tem em mente que está pagando R$ 9 em vez de R$ 10. Além disso, o jovem tem uma forma de lidar com o contraditório diferente dos adultos. Por isso, é mais fácil para eles começar a aceitar algo nunca cogitado antes”.
Você não é homossexual, está.
“Se Deus aprovasse o homossexualismo, teria criado Adão e Ivo!” - Pastor Rina no culto do dia 14 de abril de 2007.
“Não devemos ficar parados, se fosse o contrário, as ‘bibas’ já estariam todas revoltosas, protestando contra a posição da Prefeitura. Se fosse contra eles, seria preconceito. Raça de ‘bibas’. Raça de víboras” - Pastor Rina, sobre a proibição da Marcha para Jesus na Avenida Paulista em contrapartida à liberação da Parada Gay, no culto do dia 14 de abril de 2007.
“Ser homossexual nem sempre é uma escolha. E depois que eu conheci Jesus, eu resolvi que faria qualquer coisa para não ser mais. Agora eu vejo que a culpa que eu sempre senti não era em vão, era Jesus falando para eu me afastar disso tudo. O que eu estava fazendo não era certo. Agora que estou me curando, não sinto mais aquela culpa horrível. Eu sei que vai passar” ? Henrique*, 23 anos, frequentador do grupo especial para recuperação de homossexuais do ministério Nova Vida.
*Os nomes dos personagens foram trocados para preservar suas identidades.
A imagem (capa do livro) foi feita por Caio Caprioli



