Onde estão os sonhos de criança?
Quando fiz quatro anos de idade, eu decidi o que queria ser da vida, um escritor de livros. Não perdi muito tempo e achei uma máquina de escrever esquecida em uma casa abandonada da fazenda onde estava passando férias, e parti para escrever o primeiro texto da minha vida, sobre o singelo tema do monstro de Loch Ness, Escócia. Meu pai tem este conto guardado até hoje, e a pouco tempo eu tive a oportunidade de reler este escrito, o que foi curioso, mas também bem interessante.
Na segunda página encontrei uma surpresa, uma dedicatória para cerca de 20 pessoas, ou seja, praticamente todo mundo que eu conhecia naquele tempo. Este livro tinha até uma capa com uma foto que eu recortei de um livro da minha avó, mas acho que ela nunca descobriu esta safadeza! Eu ainda escrevi um livro sobre o Ieti, o popular Pé Grande, no qual o personagem principal era uma menina muito aguerrida e audaciosa no Himalaia.
A ficção científica também marcou muito a minha vida, afinal eu assisti Star Wars no cinema aos 7 anos de idade! Mas falando com sinceridade, o que eu queria mesmo era ser o Sr. Spock de Star Trek, a série que eu assistia religiosamente todos os dias quando chegava do colégio. Viva muito e prospere, era o seu memorável lema.
Um reflexo disto era o meu velho sonho de ser um astronauta, e se possível em uma missão para Marte. Eu sei, é um antigo clichê, mas o que vocês querem de alguém que visitou o Centro Espacial John F. Kennedy, em Cabo Canaveral, Flórida e assistia Cosmos de Carl Sagan na televisão? A minha admiração pelo espaço e pelas estrelas era tamanha, que eu não sei como não me interessei em ser astrônomo ou algo do gênero. E o meu velho projeto de escrever um livro espacial não chegou ao papel, pelo menos até hoje!
Não sei se é um sonho de infância, mas a verdade é que eu sempre tive fascinação por todo e qualquer tipo de tecnologia, e não é a toa que hoje eu tenho um site inteiramente dedicado a este assunto. O meu primeiro gadget eletrônico foi um joguinho Game Watch da Nintendo (um Nintendo DS ou Sony PSP daquela época), que eu usei até gastar os botões, literalmente. Eu adorava ir na casa de um amigo que tinha um computador, embora não tivesse um na minha casa. E não posso esquecer das inúmeras horas gastas na frente do vídeo game Atari. Mas o que eu queria mesmo era ser o Bill Gates ou o Steve Jobs!
Outro velho sonho era ser um astro do rock. Eu sei, é ridículo, mas eu queria muito. Cresci olhando e admirando as capas dos LPs empoeirados da minha mãe, e queria fazer parte daquele mundo do rock, inspirado pelos meus eternos ídolos Pink Floyd, Led Zeppelin e Jimi Hendrix, em especial.
Eu também quis ser jogador de futebol, vestido com a camisa 10 do meu Fluminense, estufando as redes no eterno Maracanã. Eu sonhava acordado com o estádio inteiro gritando o meu nome. Não sei como um nerd pode gostar de futebol, mas este é o meu caso, talvez porque tenha nascido no ano em que meu time e o Brasil foram campeões, ou por ter visto o Rivellino jogar ao vivo. Mas no fundo, não é bem isto. Eu gosto de futebol porque ao contrário de muitos outros esportes, ele é totalmente imprevisível, e além do mais está presente no inconsciente coletivo da maior parte dos nações do mundo.
Voltando ao presente, mas no mesmo tema, este ano vi meu time dando exibições de gala, e chegando a uma final inédita de um grande campeonato, que acabou perdendo nos pênaltis. E não reclamei, porque nos mesmos pênaltis eu assisti in loco o Brasil ser Tetra Campeão na terra do Al Gore e Obama.
A vida é assim mesmo, você tem que aceitar o que ela lhe oferece e fazer o melhor que pode com o que se tem. Para mim não existe nada no mundo melhor para se fazer com uma caixa de limões do que uma bela e doce torta de limão. Pode até ser um chavão, mas é a mais pura e destilada verdade.
Eu costumava pensar que tinha abandonado os meus sonhos de infância, e me sentir muito mal por isto. Só que dois anos atrás eu comecei a mudar de vida e hoje graças ao sucesso do meu blog, estou me dedicando à escrita quase em tempo integral. E qual foi a minha surpresa ao perceber que de certa forma, estava realizando justamente o meu primeiro sonho de infância. A moral desta história é nossa velha conhecida, surrada e batida: nunca desista dos seus sonhos, mas não desista mesmo.
A coluna desta semana foi bem nostálgica, eu sei, e sem querer justificar nada, eu explico. É que contando histórias inventadas para a minha filha dormir eu fico me lembrando de coisas que aconteceram quando eu tinha a idade dela. E isto é o que eu chamo de viagem temporal. E falando nisto, até a semana que vem!


