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O empresário, blogueiro e designer Nick Ellis é o criador do Digital Drops e do AppStore Blog. Além disso ele também é editor do MeioBit, escreve no Blog de Brinquedo e tem muitos outros blogs e projetos prestes a sair do forno.

Opinião: cariocas e paulistanos, uni-vos!

18, fevereiro de 2010, 13:08 | Colunas

Manifesto contra o preconceito, o bairrismo e os clichês.


Hoje eu li um texto escrito por um jornalista de São Paulo, que em poucas linhas conseguiu ofender uma cidade e uma população que são reconhecidas mundialmente pela sua simpatia e hospitalidade, e o pior, usando como justificativas alguns clichês mais batidos que eu li nos últimos tempos. No final o autor diz que até gostaria de viver na cidade, isto se não fossem os cariocas. Sob o pretexto de falar mal do Carnaval e da presença das superstars Madonna, Beyoncé, Alicia Keys no Rio de Janeiro, o autor do texto destila preconceitos e frases sem sentido, criando um palco para um verdadeiro engalfinhamento entre cariocas e paulistanos nos comentários do post, algo que não tem o menor cabimento.

No post tudo vira um motivo para atacar o carioca, desde o sotaque, passando pelo bronzeado, até uma suposta facilidade para ser feliz e até para transar. Não sei o que incomoda tanto ao dito jornalista, afinal de contas, qual o problema de ser carioca? Nós somos as pessoas mais felizes do mundo (segundo a Forbes) porque vivemos na cidade mais linda do planeta, mesmo sabendo que ela tem milhares de problemas. Sinceramente não vejo porque atiçar uma animosidade entre a população das duas maiores e mais importantes cidades do Brasil. Eu garanto a vocês que a imensa maioria da população carioca não se acha, muito pelo contrário, luta dia após dia sem parar fazendo tudo ao seu alcance para levar uma vida mais digna.

Eu também acho errado generalizar uma população inteira em alguns exemplos caricatos, e quero deixar bem claro não tenho absolutamente nada contra os paulistanos, muito pelo contrário, adoro esta cidade. Eu morei durante 4 anos na famosa terra da garoa, da qual sinto saudade até hoje, e sou o maior embaixador de São Paulo, sempre defendendo a capital paulista e sua simpática população. Vivo falando bem do projeto Cidade Limpa, que mudou a cara da cidade, revelando fachadas belíssimas que ninguém suspeitava. A cidade é inegavelmente o centro do Brasil, tanto online quanto offline. Não existe lugar melhor no Brasil para conseguir um ótimo emprego e para crescer na vida profissional. Alguns dos meus melhores amigos são paulistas, eu não sou muito adepto de praia, não tenho bronzeado, não falo com sotaque forçado e já me defini inúmeras vezes como o carioca mais paulistano do mundo.

Lendo o texto, parece que a produção cultural do Rio de Janeiro é nula. Vou citar apenas alguns exemplos na música. dá pra falar em MPB sem citar Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Tim Maia, entre tantos outros compositores e intérpretes. O autor também diz no texto que o Rio não combina com o Rock. Não dá pra falar em Rock sem citar seus dois maiores poetas, ambos cariocas, Renato Russo e Cazuza. É impossível pensarmos na história dos shows de Rock no Brasil sem lembrar do Rock in Rio, no qual estive presente desde a primeira edição em 1985, e que virou uma franquia e terá nova edição no ano que vem. E por falar em bandas de rock, não podemos esquecer de bandas como Planet Hemp, Los Hermanos e o Rappa. A Cássia Eller também era carioca, e eu não conheço melhor exemplo de roqueira.

O Rio é parte essencial da memória e do inconsciente coletivo desta nação, e é uma pena que o autor do texto não tenha a grandiosidade de perceber isto. Mas nada disto importa, na verdade. Pouco importa se a pessoa nasceu ou não em uma cidade, o importante é que todos nascemos no Brasil. Eu sou a favor da boa convivência entre todos os habitantes do país. Tenho grandes amigos de diversas partes do país, e me orgulho muito disto, assim como me orgulho de ser carioca. Eu tenho certeza de que muitas pessoas sentem o mesmo orgulho por sua cidade natal, mesmo que ela enfrente problemas como miséria, violência, falta de condições humanas de vida, como acontece aqui no Rio, em São Paulo e em todas as grandes metrópoles do país.

Chamar o carioca de vagabundo, mesmo que de forma sutil, é a essência do clichê. É fácil apontar os desdos para os cariocas, mas a verdade é que existem tantos desocupados no Rio quanto em outras cidades, a diferença é que aqui todos eles vão para a praia, em vez de ficaram em casa. Posso garantir que quase todos os cariocas que eu conheço são excelentes profissionais no que fazem, e se dedicam de corpo e alma para construir o seu futuro. Ao dizer que São Paulo gera um rio de dinheiro para o resto do país e acusar o Rio de ser sede de estatais, o autor do texto ignora diversos fatores. Essa historinha de que os impostos de São Paulo sustentam o Brasil é uma piada antiga, fraca e de péssimo gosto, que ofende a todos os que pagam as taxas em outros estados. Alegar que São Paulo é responsável por toda a prosperidade da nação é absurdo e injusto. Cariocas também pagam impostos e geram muita riqueza para o Brasil.

A solução para tudo isto não é o generalizar e desprezar os cariocas, e sim promover o entendimento e a colaboração entre os habitantes de todas estas cidades para pensem melhor na hora de eleger seus representantes em Brasília. É preciso ter a consciência de que o Brasil é muito maior do que uma simples cidade, de que fazemos parte de um todo e que isto é o mais importante. Eu não sou ufanista, mas sou patriota, e um otimista incorrigível que acredita no futuro do Brasil e dos brasileiros, mas não apenas no de paulistanos e cariocas, mas em todos eles.

Apesar da inegável força da capital paulista, o Brasil é muito mais do que São Paulo. O Rio é a cidade onde eu nasci, São Paulo é a cidade que eu adotei, mas nenhuma das duas pode ter a pretensão de responder pelo resto do Brasil. Não vivemos em São Paulo, no Rio, em Salvador ou em Brasília. Não existem Cariocas, Paulistanos, Soteropolitanos ou Belo-horizontinos, existem Brasileiros. Vivemos no Brasil.