Brasil, uma nação hypólita
Desde criança ouço falar no papo de que o Brasil é o país do futuro. Do futuro do pretérito, diriam os mais céticos. Até porque assistir ao desfile de candidatos a prefeito e vereador nas campanhas eleitorais deste ano, convenhamos, parece servir apenas para corroborar as opiniões dos mais pessimistas. Afinal de contas, como escolher adequadamente um candidato se no horário eleitoral gratuito a impressão que se tem é de que estamos assistindo a um programa humorístico no qual revezam-se figuras como Cham da Xerox, Tomas Tomate, Já-Já, Kid Bengala e, ráááááá, Sérgio Mallandro?
Ver os vídeos no YouTube ou fotos dos santinhos de candidatos como Jorge Perereca (”Quem não faz peca, pra mudar vote em Perereca”), Dinha Tineli (”Tudo pela Dinha”) ou o mestre do óleo de peroba Enéias Filho - que aparece na TV usando as mesmas barbas e bigode que caracterizavam o falecido deputado Enéas Carneiro, porém sem possuir o mínimo parentesco com o fundador do Prona - são coisas que fazem qualquer pessoa mais politizada ficar desanimada. Entretanto, como deixar de recordar que a conta de luz, a segurança pública, as taxas e impostos cobrados neste país e os rumos futuros de setores como educação, saúde, transportes e economia são diretamente ligados aos governantes e parlamentares eleitos com nossos votos?
Em um país no qual a palavra “político” paulatinamente perde sua conotação de substantivo, sendo cada vez mais vista como um adjetivo com conotações unicamente pejorativas, o que dizer quando os melhores quadros de nossa sociedade resistem a filiar-se a partidos devido ao nivelamento por baixo daqueles que se candidatam a cargos públicos? A esperança é a última que morre, mas por vezes a metáfora que me vem é de uma idosa a definhar na UTI de um hospital municipal. Enquanto isso, eleitores mais esclarecidos precisam driblar a seara de candidatos exóticos e/ou maquiados por marqueteiros, a fim de conseguir encontrar políticos que genuinamente merecem receber seu voto, com a ajuda de sites como Congresso em Foco, Transparência Brasil e Voto Consciente. Mas qual é a porcentagem do eleitorado brasileiro que ainda se preza a fazer esse esforço de mobilização cívica?
Enquanto a vasta maioria de eleitores prosseguir achando que política é uma mera questão de p(h)oder, reagindo com apatia a quaisquer noticiários que discutam o assunto, não creio que o Brasil conseguirá superar a aura de eterno país de um futuro brilhante que nunca chega. E assim, permanecemos estacados na incômoda condição de “gigante adormecido em berço esplêndido”. Uma nação de cidadãos cordiais com imenso potencial que nunca é plenamente atingido, e que me faz pensar na mesma imagem que veio à cabeça de Millôr Fernandes ao ver o ginasta Diego Hypólito cair ao final de sua apresentação nas Olimpíadas de Pequim: um país que tem tudo pra ganhar medalha de ouro mas acaba por cair de bunda no chão, com a cara perplexa de quem é incapaz de compreender porque não chega ao alto do pódio.


