As Lições de Woz
Na segunda-feira passada eu tive o prazer de assistir em BH a uma palestra de Steve Wozniak, fundador da Apple ao lado de Steve Jobs, e um verdadeiro papa para todos os geeks e nerds. O tema da apresentação de Wozniak era inovação e criatividade, e a platéia era formada por 1.400 executivos e três blogueiros, incluindo este que escreve estas linhas.
Woz, como ele é conhecido mundialmente, é uma das pessoas mais simpáticas que eu já conheci, e fez uma palestra inesquecível, daquelas que eu vou guardar na memória para sempre. E o que ele tinha a ensinar a todos estes executivos? Muito mais do que monges, magos e outros autores de livros de auto-ajuda, pelo menos na minha opinião.
Para Woz, a genialidade está sempre acompanhada de bom humor. Ao contar uma piada, você faz uma linha de raciocínio levando o ouvinte para um caminho, para depois soltar o ?punchline? que leva ao pensamento, ?é, o desfecho também podia ser assim?.
Woz foi um garoto inteligentíssimo, além de atento e muito curioso. Ele contou a sua história de vida desde os 10 anos de idade, quando devorava livros de Engenharia do seu pai e dos pais dos seus amigos, e comprou um rádio amador para conversar com pessoas em outras partes do mundo, o que dava uma sensação gostosa de poder.
No começo dos anos 70, Woz leu um artigo marcado como ficção na Esquire Magazine sobre o Blue Box, um aparelho no qual você digitava tons e conseguia fazer ligações de graça para qualquer parte do mundo. Wozniak não perdeu tempo e ligou para Steve Jobs, e ao ler partes do texto pelo telefone para seu amigo, Woz acrescentou que aquilo parecia ser verdade, e não uma obra de ficção.
Os dois então foram até uma biblioteca técnica e encontraram um livro que descrevia as freqüências mencionadas no artigo. Eles voltaram para a casa de Steve Jobs e construíram o seu próprio Blue Box. A dupla nunca usou isto para poupar dinheiro em ligações, o objetivo era conseguir realizar uma coisa única, ao invés de ter lucro puro e simples.
Steve também fez uma rede no quarteirão usando os cabos de eletricidade da rua, assim ele e seus amigos podiam acender a luz e acordar um ao outro. Desde a primeira vez em que ouviu falar na palavra ?computador?, Woz se dedicou holisticamente a este assunto. Nosso herói ainda deu a sorte de morar no Vale do Silício, o local com mais chips por metro quadrado do mundo, pelo menos naquela época. Segundo Woz, você podia até mesmo receber chips em troca de cortar a grama do vizinho, por exemplo!
Woz criou seu próprio computador com uma interface de luzes e botões, capaz de realizar operações, desde que você entendesse os resultados em linguagem binária. Ele passou a programar sempre que tinha um tempo livre, deixando de lado coisas supérfluas como o sono para se dedicar ao máximo. Woz amava a tecnologia, mas de uma forma prática, com resultados práticos e úteis para o ser humano.
Seu professor, ao ver que ele não tinha mais nada a aprender naquela aula, disse a Woz que ele deveria trabalhar numa empresa em Sunnyvale, programando computadores e aprendendo na prática. Steve disse que muitas instituições de ensino têm esta ilusão de que tudo o que você tem a aprender está entre aquelas paredes, naqueles livros. Para ele, nada pode ser mais distante da realidade. O conhecimento está em outros livros, nas pessoas, nos trabalhos que você exerce ao longo da vida.
Woz diz que um grande professor deve saber ver a necessidade de cada aluno, e no caso de alguém excepcionalmente brilhante como Steve, recomendar outro caminho. Ao permitir que alunos ou funcionários tenham a liberdade para pensar, questionar e buscar novos caminhos, um bom professor ou chefe está estimulando-os a descobrir soluções mais simples e eficientes.
Outro professor o avisou que ele havia quebrado o orçamento de uma aula. Woz nem sabia que uma aula tinha orçamento, mas acredita que a escola deveria ter incentivado um aluno como ele, ao invés de pensar simplesmente no custo.
Steve Jobs foi trabalhar na Atari, o que para Woz era um verdadeiro sonho, e ele convidou o seu amigo para criar uma versão diferente do pong, o breakout, em apenas 4 dias (e noites). Quando viram o seu trabalho pronto rodando em uma televisão na qual a bola mudava de cor, tiveram o grande insight da cor, que seria tão importante nos computadores que criariam juntos.
Ao criar um terminal com um teclado e uma televisão, Steve conseguiu se conectar com computadores do outro lado do país, um verdadeiro sonho para ele e seu amigo Steve Jobs. Um dia, Woz teve uma grande sacada, acrescentar ao terminal que havia criado não mais do que um punhado de memória, para que ele pudesse se conectar ao seu próprio computador. Em 1976 Steve Wozniak construiu o Apple II, que iria revolucionar o mundo dos computadores.
O Apple II foi o primeiro fruto da Apple, criado por Woz e brilhantemente vendido por Jobs. Durante o tempo em que passaram na Xerox, Bill Gates, Steve Jobs e Steve Wozniak viram abismados o sistema operacional gráfico com janelas e menus e o mouse como interface. Isto mudou tudo na cabeça dos três. O computador Lisa da Apple foi um passo adiante nesta direção, resultado de uma extensa pesquisa e de muitos testes.
O objetivo da Apple sempre foi criar computadores acessíveis, que pudessem ser usados mesmo por quem nunca tivesse visto um computador, além de serem perfeitos para quem já é experiente.
Na época em que estavam desenvolvendo o LISA, a Apple tinha uma daquelas espelhadas, na qual eles podiam assistir a reação das pessoas que nunca tinham usado com o mouse e os programas que eles estavam escrevendo. Aí eles traziam pessoas que nunca tinha usado um computador, incluindo suas mulheres, para testar qual seria a reação.
Até hoje este é o objetivo a se alcançar em todos os produtos da Apple, a simplicidade extrema no hardware e principalmente no software. Um bom exemplo disto é o iPod, que conquistou o mundo por ser muito fácil de usar em relação a outros MP3 players do mercado.
A simplicidade, esta é a grande força da Apple, e a maior lição de Steve Wozniak para nós mortais. Woz não se acha melhor do que ninguém por ter uma inteligência acima da média e muitos dólares na sua conta bancária, e trata a todos de forma atenciosa e gentil, como eu pude comprovar pessoalmente. É um enorme motivo de alegria ter conhecido o meu grande ídolo Steve Wozniak e ter conversado com ele durante alguns minutos. Agora só me falta conhecer o Bill Gates e o Steve Jobs!
Para terminar, é preciso dizer que Woz é o maior incentivador de pensamento livre e criatividade que eu conheço. É um exemplo a ser seguido por todos, principalmente aqui no Brasil, onde o nosso sistema educacional passa por problemas de extrema gravidade.
Visite o site de Woz para saber mais sobre este notável ser humano.


