A arte de decifrar letras de música
Não é fácil a tarefa de quem se dispõe a analisar uma letra de música. Não me refiro, bobviamente, a canções de bandas cujos arranjos e letras têm tanta importância quanto o traseiro de suas bailarinas de palco, e que cometem versos como “o pinto do meu pai fugiu com a galinha da vizinha, esse pinto não é mole, esse pinto é safado”, tão sutis quanto hipopótamos no cio dançando macarena em uma loja de cristais.
O primeiro desafio consiste em compreender a dicção e, principalmente, o léxico de certos cantores e compositores. Por exemplo: quando um incauto ouve a canção “Açaí”, de Djavan, será ele capaz de compreender que o compositor alagoano canta “açaí/ guardiã/ zum de besouro/ um imã/ branca é a tez da manhã” em vez de interpretá-la como, vá lá, “ao sair do avião/ luz de besouro em vão/ grande é às três da manhã”? Do mesmo modo, Herbert Vianna derrubou muitos ouvintes com o refrão do sucesso “Alagados”, gravado em 1986, no qual o vocalista dos Paralamas do Sucesso canta: “Alagados/ Trenchtown/ Favela da Maré”. Por serem poucos os que sabem que Trenchtown é um distrito de Kingston, capital da Jamaica, constantemente citado nas letras de Bob Marley, não foram poucos os que cometeram virunduns e trocaram a palavra “Trenchtown” por “cristal”, “Flinstone”, “tristão”, “Nescau”, “sem sal” e outras inúmeras variantes.
Outras vezes o problema não está em compreender as palavras de uma letra, e sim o que cargas d’água o compositor queria dizer com seus versos. Merece um doce, por exemplo, aquele que conseguir decifrar o hermetismo trocadilhesco de Chico César na canção “A Prosa Impúrpura do Caicó” e decifrar o significado desta estrofe: “Pé de xique-xique, pé de flor/ Relabucho, velório/ Videogame oratório/ High-cult simplório/ Amor sem fim, desamor/ Sexo no-iê/ Oxente, oh! Shit/ Cego Aderaldo olhando pra mim”. Humberto Gessinger é outro que, imagino, estava a bordo de uma viagem sem escalas ao mundo da maionese ao escrever: “Um cão sem dono, uma árvore no outono/ O nono mês de gravidez/ Eu perco o sono ao som de Yoko Ono/ E telefono pra vocês”. Mas, neste caso específico, creio que o título de sua composição é a chave para a sua compreensão: “Nada a Ver”.
Há ainda os casos nos quais melodia e arranjos são diametralmente opostos à letra que é cantada em uma gravação. Eu, por exemplo, passei anos cantando e dançando ao som de “Love Vigilantes“, do New Order, sem sequer imaginar que seus versos eram praticamente uma paráfrase do roteiro de “Os Outros”, aquele filme de terror estrelado por Nicole Kidman: “When I walked through the door/ My wife she lay upon the floor/ And with tears her eyes were sore/ I did not know why/ Then I looked into her hand/ And I saw the telegram/ That said that I was a brave, brave man/ But that I was dead”. E não é o único caso de uma música narrada em primeira pessoa que é cantada por um “morto”. Vocês já atentaram para a letra de “Flores”, sucesso gravado pelos Titãs em 1989? O arranjo animado disfarça o fato de que sua letra, pra lá de lúgubre, transmite o ponto de vista de um suicida (”Os punhos e os pulsos cortados/ E o resto do meu corpo inteiro”) que narra seu próprio velório de dentro de seu caixão coberto de flores (”Há flores cobrindo o telhado/ E embaixo do meu travesseiro/ Há flores por todos os lados/ Há flores em tudo que eu vejo”).
Muitas vezes as letras são tão sutis que só é possível compreendê-las depois de um “empurrãozinho” dado pelo seu autor. Foi o meu caso com Leoni, que ao comentar os versos de “Lágrimas e Chuva“, sucesso da época em que ainda tocava baixo no Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, esclareceu em uma entrevista que a música é o rascunho do bilhete suicida de uma mulher depressiva que flerta com a idéia de se matar (”Eu perco o sono e choro/ Sei que quase desespero/ Mas não sei por quê/ A noite é muito longa/ Eu sou capaz de certas coisas/ Que eu não quis fazer “) e vivencia “mil e uma noites de suspense” em seu quarto cogitando a idéia de deixar que seus ímpetos a la Ian Curtis e Kurt Cobain se sobreponham.
O assunto é inesgotável. As inúmeras comunidades “Analisando Letras” no Orkut não me deixam mentir, do mesmo modo que o excelente site Song Meanings. E você, já parou para pensar nos significados entrelinhados nos versos de suas músicas prediletas? Da próxima que você for a um videokê e seguir a bolinha pulando no telão, pense nisso…



