Crônica de um alheio ao futebol
Meu pai é teresinense, nascido e criado, como a gente diz por lá. Depois que ele serviu o exército, ele saiu de Teresina e foi morar em Curitiba. Passou um tempão por lá. Coisa de uns cinco anos, eu acho. Depois, se mandou para o Rio de Janeiro, onde morou mais um tempo. Não sei se ele trouxe a paixão pelo Vasco da Gama de lá ou se era cruz-maltino desde moleque.
Sei que aprendi a gostar de futebol com ele. A gostar de futebol e a ser vascaíno. Sim, o Piauí tem times de futebol, sim. Nada muito representativo se comparado a outros estados do Nordeste, como Bahia e Pernambuco, é verdade, mas tem.
O fato é que foi ele que me apresentou o futebol, aquela coisa de sentar na frente da TV para acompanhar o campeonato, contar os pontos, fazer parcos cálculos para saber a chance do Vasco em determinada competição… Nunca foi uma coisa forçada, era até prazeroso. Lembro que uma das coisas mais legais da minha infância foi ir com meu pai ver Brasil e Lituânia. Choveu, voltamos pra casa a pé [minha casa em Teresina fica a vinte minutos de boa caminhada do maior estádio da cidade] e ainda paramos no meio do caminho para um refrigerante e uma partida de sinuca.
Bem antes disso, em 1994, me peguei quase morrendo durante a copa e queimando uns fios de cabelo na vela que acendi para o Brasil levar a disputa de pênaltis da final. Vibrei com a campanha do Vasco em 97, em 1998 fiquei chateado com a derrota do Brasil para a França na Copa do Mundo. Em 2002, a Copa do Mundo serviu só para sair de casa de madrugada e fazer fuzarca na casa dos amigos. O maior prazer era assistir os jogos de madrugada e voltar para casa de ônibus para aproveitar em paz as primeiras férias como universitário.
Depois de um tempo simplesmente perdi o interesse pela coisa. Via alguns jogos, torcia em alguns amistosos do Brasil, sempre procurava pelo Vasco na tabela de classificação do Campeonato Brasileiro, mas nada que lembrasse os tempos áureos em que eu era um torcedor. Nunca fui fanático, pra falar a verdade. Mas dava lá meus berros.
Desempenho nas Olimpíadas? Jogo na quarta-feira à noite? Última escalação controversa? Posição do Vasco na tabela? Nada disso me desperta emoção. Já me vi, sem problema algum, torcendo com um amigo rubro negro pelo Flamengo numa tarde de domingo. Tirei sarro da cara de um amigo corintiano quando do rebaixamento do time paulista. Tudo pela galhofa. Minhas opiniões sobre futebol se resumem a “O Brasil não pode deixar de ir para a Copa do Mundo! Quem quer que seja o técnico no comando, este será paulatinamente torturado pela ‘pátria de chuteiras’”. E só. Se resume a isso.
O último jogo do Brasil nas eliminatórias eu fiquei sabendo através das capas dos jornais do dia seguinte. Disseram que foi um bom jogo. O Vasco já teve até o Edmundo como goleiro, chorando no fim do jogo contra o Cruzeiro. Fiquei sabendo disso numa das 15 repetições do noticiário esportivo de um canal da TV fechada. Futebol para mim, agora só no video game. Lá, cada segundo é tenso, cada lance é decisivo, qualquer gol [até contra!] é motivo para fogos. Na vida real eu passo.
Mas eu ainda sonho com a minha camisa comemorativa do Expresso da Vitória, o maior time que o Vasco um dia teve. Contraditório, né?


