Uma piada infinita sem tradução
“Escrever é fácil. Tudo o que você tem a fazer é ficar olhando fixamente para uma folha em branco até a sua testa começar a sangrar”. Recordo essa frase lapidar de Douglas Adams ao pensar no suicídio de David Foster Wallace, um dos mais brilhantes escritores contemporâneos, que deixou a vida no dia 12 de setembro de 2008, aos 46 anos de idade.
O ofício de tentar buscar palavras capazes de definir o turbilhão de idéias que se passa em uma mente por vezes cobra um preço árduo. Lembro de Hemingway, que arrebentou a cabeça com uma espingarda por achar que seu talento havia esgotado. Pessoa, que renunciou ao amor de uma mulher em nome de sua compulsão literária. Gogol, que finalizou a segunda parte de “Almas Mortas” para em seguida ateá-la ao fogo. Poe, que afogou suas angústias até estourar seu fígado. Fora autores como Virginia Woolf, Yukio Mishima, Pedro Nava, Anne Sexton, Horacio Quiroga e tantos outros que abreviaram suas passagens neste mundo. E aí sou tentado a concluir que sábio mesmo foi Rimbaud, que escreveu o que tinha de escrever e depois foi viver sua vida bem distante das letras.
Porém, é preciso fazer a devida ressalva: como bem comentou o jornalista e escritor José Roberto Torero em uma entrevista que fiz com ele, também há pedreiros que cortam os pulsos, dentistas que tomam veneno, contadores que pulam das janelas. Mesmo assim, não posso deixar de pensar na definição de Adams e no questionamento que fiz a um cineasta amigo meu: se fossem opções rigorosamente excludentes entre si e você pudesse escolher uma delas, desejaria ser um grande artista ou um cara anonimamente feliz?
Segundo Neil Gaiman, toda história pode ter um final feliz. É apenas questão de decidir em que ponto deixamos de contá-la; por exemplo, antes que os personagens morram. Mas o caso é que os grandes livros falam de homens transformados em baratas, assassinos de velhinhas ou árabes, esposas adúlteras que se suicidam, tuberculosos em crise existencial, filhos que matam o tio que trepou com sua mãe… Enfim, uma desgraceira só. A arte se alimenta dos dramas da vida.
Mas tergiverso, tergiverso. Na verdade, gostaria apenas de prestar uma breve homenagem a David Foster Wallace. Um cara que de certa maneira acabou por se tornar o Kurt Cobain de toda uma geração de leitores que não conseguirão se desvencilhar da sensação de que o mundo perdeu um cara que ainda tinha muito por fazer, mas optou por, simplesmente, trilhar um outro caminho. O pequeno grande conto a seguir, “Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial”, é o texto de abertura o livro “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”, único livro de Wallace até agora publicado no Brasil.
“Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para frente, com a mesma contração no rosto.
“O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.”
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P.S.: O título deste texto propositadamente pode ser compreendido de outras maneiras; mas faz menção direta ao fato de que a obra-prima de David Foster Wallace, “Infinite Jest” (”Piada Infinita”, de 1996), ainda não foi traduzida para o português.


