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Pedro Jansen

Vai ficar só olhando?

17/09 - 14:35

A coluna de hoje seria sobre uma coisa completamente diferente do que eu estou escrevendo agora. Eu ia falar sobre a TV [o aparelho mesmo] e como ela exerce um fascínio incrível sobre mim.

 

Mas aí, assim como eu faço milhares de vezes por dia, tirei os óculos do rosto com uma mão, puxei a camiseta com a outra, uni as duas pra limpar as lentes do óculos e… PIMBA! A armação do meu óculos, com menos de três meses de vida, quebrou na minha frente, como se fosse feita de vidro, de macarrão cru…

 

Nessas horas, quem usa óculos já deve ter pensado: “mas que josta, hein?”. Sim, que belo problema eu tinha nas mãos. A única coisa que me permite enxergar decentemente [e trabalhar, e andar, e digitar este texto] ali quebrada, inútil.

 

Não apenas um sentimento de impotência me tomou o corpo, mas um combinado de ódio, desespero e agonia me turvaram os olhos. Em segundos pensei “Porque, Murphy, por que?” e as idéias foram se encadeando: a burocracia de ir até a ótica para solicitar a garantia do óculos quebrado e praticamente novo; perder pelo menos um turno de trabalho para resolver algo tão banal; como um óculos tão novo pode se quebrar assim?; consertar os óculos de qualquer jeito que seja; voltar a trabalhar o mais rápido possível.

 

Rodei os setores próximos ao meu e ninguém tinha superbonder à mão. O jeito seria sair batendo perna atrás de um lugar que vendesse. Não sei se acontece com vocês, amigos quatro-olhos, mas sem meus óculos passo a ser quase uma ameba. A combinação de 3,5 graus de miopia com 3 de astigmatismo em cada olho provoca, além da cegueira completa, uma total perda da noção de espaço e profundidade, uma dor de cabeça instantânea e a necessidade de forçar muito os olhos para consegui focar em algo.

 

Por isso, este tipo de problema não pode ser ignorado, mesmo com essa involução em segundos. Quando eu era moleque e quebrava meus óculos religiosamente a cada seis meses, numa partida de basquete ou vôlei, minha mãe dava um jeito de resolver a parada. Mas o guri cresce e vira marmanjo, barba na cara, aquela coisa toda. Adulto, sabe como é? Paga as próprias contas, manda na própria casa, conserta os próprios óculos.

 

Com o tubo de superbonder na mão, hora de enfrentar o desafio: conseguir fazer algo que exija coordenação motora. Elefantes pintores têm mais coordenação motora do que eu. E ganham dinheiro com isso, é bom lembrar. Abro a tal supercola, junto lente e armação e, lentamente, começo a colar tudo. Fico feliz por conseguir não aprontar nada [leia-se "colar todos os dedos para sempre"]. Mas, como costuma acontecer aos líderes de campeonatos de futebol e vilões de RPG diante de absurda vantagem a seus adversários, me torno relapso. Bom demais para ser verdade, fazer aquele serviço todo e sair ileso. Foi então que me distraí e espalhei aquela cola na ponta dos dedos e unhas. Pelo menos foram só alguns respingos, nada demais.

 

Armação ok [naquelas, claro], cabeça a milhão com os novos pequenos problemas oriundos desse imprevisto e retomada da rotina. Fim de papo? Não…

 

Mais do que um relato sobre a epopéia da quebra e restauração dos meus óculos, este texto serve para dizer: “arrumou um problema?, sinuca de bico?, demandas demais para dar conta?, ‘inútil dormir que a dor não passa’, meu amigo”. Esbraveje, xinge, pragueje… tais demonstrações de sanidade mental são um direito irrevogável nesses momentos [só lembre que as pessoas ao seu redor não têm nada a ver com isso]. Mas ficar no mimimi não vai resolver nada.

 

Te aconselho a arregaçar as mangas e mandar ver. Beeem melhor…