Tarantino em minha vida
Na essência, eu sempre fui um fanático por cinema, e entre algumas das maiores inspirações na minha vida e personalidade estão filmes de mestres como Alfred Hitchcock, John Huston, Orson Welles, Francis Coppola, Steven Spielberg entre muitos outros Mestres (com m maiúsculo mesmo).
Só que um diretor se destaca dos demais na minha humilde preferência, e isto acontece pela identificação que sinto com seus filmes e pela humanidade e personalidade dos seus personagens. Apesar da forte concorrência, Quentin Tarantino é o meu diretor de cinema favorito, superando os outros grandes cineastas não só por conta da sua impecável maestria técnica da sua direção e roteiro, mas principalmente por causa da mitologia que ele cria ao redor dos seus filmes.
Para mim é como se os filmes de Quentin fossem passados em outro planeta, onde tudo é intoxicado por resquícios da viagem de ácido de Mia Wallace, mas de forma muito positiva. Quentin é completamente diferente dos demais, e para mim uma das coisas que o diferencia e destaca é que ele sempre foi um grande fã de cinema, e trabalhou durante muitos anos em uma locadora, assistindo incansavelmente todos os grandes clássicos, e não estou falando só dos clássicos consagrados, mas também dos filmes mais underground que você pode imaginar. E nisto eu sempre me identifiquei com ele, tanto que fiz até um curso de roteiro depois de ter assistido um filme dele.
Mas voltando ao começo. Eu me lembro de ter assistido Cães de Aluguel (Reservoir Dogs) pela primeira vez no Brasil em 92 e ter ficado muito impressionado como este diretor e ator tinha feito um filme tão brilhante e inteligente com um orçamento apertado. As músicas, a edição e o uso de uma transmissão de rádio fictícia para amarrar a narrativa (K. Billy Super Sounds of the Seventies) também me deixaram de queixo caído.
Neste filme já estavam bem visíveis as marcas registradas do seu estilo, os carros Cadillac, diálogos inesquecíveis de personagens, conversas de terceiros em off, e a câmera que se move e poupa o espectador justamente na cena mais brutal, o que para mim aumenta ainda mais o impacto, pelo menos para quem tem imaginação.
Em 93, eu fui para a Europa bem na época em que True Romance estava sendo lançado. O filme dirigido por Tony Scott (irmão do Ridley) e muito bem escrito por Tarantino estava dominando todos os outdoors e metrôs de Paris. É claro que eu fui assistir na estréia, apesar da dificuldade de achar um cinema em que o filme não fosse dublado em francês, e adorei aquela história de amor temperada com tiros.
Em 1994 tive o privilégio de assistir o seu segundo projeto como diretor e roteirista, Pulp Fiction, e posso dizer que este filme mudou a minha vida. É que Pulp Fiction tem os melhores diálogos de todos os tempos, é recheado de tiradas e ainda por cima traz uma surpreendente meta linguagem. Tarantino inovou ao montar o filme com flashbacks e cenas fora da ordem, o que tem sido copiado incessantemente por outros diretores desde então, na maioria das vezes sem sucesso. É sério candidato ao melhor filme que eu já vi, ao lado de Kill Bill, é lógico.
Este foi o filme que apresentou Tarantino para o mundo, que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor roteiro original. Se você por acaso mora em outro planeta e ainda não assistiu Pulp Fiction, pare de ler esta coluna agora e vá até a locadora mais próxima, e não se esqueça de comprar a trilha sonora para se deliciar ao som de Misirlou e Jungle Boogie, entre outras pérolas.
Neste mesmo ano, Quentin teve um feudo com Oliver Stone, que deturpou seu roteiro original Natural Born Killers. Alheio a esta confusão, eu gostei muito do filme, mas até hoje me pergunto como seria a versão original dirigida por Tarantino.
Voltando as trilhas sonoras dos seus filmes, todas elas tem dois pontos em comum. Em primeiro lugar, elas são todas maravilhosas, e sempre tem trechos dos filmes. Segundo Quentin, quando ele começa a pensar em uma história para escrever, ele consulta sempre antes a sua coleção musical para descobrir qual a personalidade e o espírito do filme. Depois que ele encontra a música perfeita para a abertura e fechamento do filme e mais umas duas ou três, ele já sabe qual o tom e o ritmo que deve ser seguido no projeto. A idéia de colocar diálogos misturados com as músicas é perfeita, mas não adianta copiar, isto só funciona com as conversas ágeis e inteligentes e sua escolha perfeita de músicas que, a imensa maioria dos anos 70, que só Quentin Tarantino é capaz de produzir.
Quentin já é reconhecido por todos por seu toque mágico para ressuscitar carreiras de grande atores perdidos nos ostracismo em Hollywood, John Travolta e seu belo avião que o digam. Para o filme seguinte a Pulp Fiction, Q.T. deu uma força enorme para Pam Grier, a Foxy Brown original, estrela de vários filmes “Blaxploitation”, e que hoje em dia está muito bem na TV em L Word, muito graças a pequena ajuda do amigo Quentin. Além destes são muitos outros casos, e o mais recente é David Carradine, que eu assistia quando era criança em Kung Fu e interpretou de forma magistral o personagem Bill.
Outra de suas assinaturas é o fato de que Quentin sabe criar cenas clássicas dentro de carros como ninguém. Só para citar algumas das minhas favoritas: Harvey Keitel desesperadamente tentando salvar um Tim Roth ensangüentado em Reservoir Dogs, de John Travolta e Samuel L. Jackson conversando sobre Amsterdam, enquanto o personagem Jules acidentalmente explode a cabeça do passageiro refém, e da sensacional Uma Thurman em Kill Bill dentro do Pussy Wagon, tentando reanimar os dedos dos pés após alguns anos perdidos esquecida na cama de um hospital. E os carros quase sempre são Cadillacs ou Chevys.
Jackie Brown pode não ter sido um sucesso de bilheteria, mas eu adorei. O problema é que Quentin passou um longo tempo até fazer seu próximo filme. Muito se falou sobre um suposto filme prelúdio a Pulp Fiction, The Vega Brothers, que uniria os dois irmãos Vega, John Travolta de Pulp Fiction e Michael Madsen de Reservoir Dogs, mas o projeto infelizmente foi deixado de lado porque os atores ficaram velhos demais para interpretar a si mesmos em papéis mais novos.
Quentin é amigo do também diretor Robert Rodriguez, e a ligação rendeu ótimos frutos espalhados em vários filmes. Quentin sempre participou das películas de Robert, seja como ator, como em Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn) onde Quentin interpretou o irmão de George Clooney, ou em Sin City do Frank Miller, que tem alguns minutos dirigidos por Tarantino, não por acaso em uma cena que se passa dentro de um carro.
Os dois há pouco tempo também realizam em dupla Grindhouse, um programa duplo com os filmes ultra trash Planet Terror e Death Proof, este o filme mais incompreendido de Tarantino, no qual um serial killer dirige uma verdadeira máquina mortífera, que é 100% à prova de morte, mas isto só se você estiver sentado do lado do motorista! Este filme em dobro é uma homenagem aos B-movies dos anos 70 e aos velhos, escuros e sujos cinemas Grindhouse, que sempre exibiam filmes em sessão dupla, quase sempre com defeitos como sujeiras na tela e até a explosão do projetos, que são reproduzidos nos filmes.
Quentin é um fantástico diretor de cenas de ação, como se vê na primeira parte de Kill Bill, mas de nada adiantaria se ele também não fosse este roteirista incrível, capaz de escrever os diálogos mais improváveis e perfeitos. Em Kill Bill Vol. 2, Bill defende o argumento de que, entre os super heróis dos quadrinhos, o Super Homem é o que tem a mitologia mais forte, já que ele não se fantasia para se tornar o Superman, ele é o Superman, aquela é a sua roupa, e Clark Kent, com seus óculos e estilo careta é a sua crítica a humanidade. Simples e perfeito, como tem que ser.
Eu mal posso esperar pelo próximo filme, Inglorius Bastards, uma releitura dos filmes da segunda guerra mundial no estilo Tarantino, que está sendo prometido o começo deste século! Parece que ele estava fazendo um remake do filme Faster, Pussycat! Kill! Kill! com Eva Mendes e… Britney Spears, mas não sei no que deu isto…
Apesar de dizer que pretende se aposentar aos 60 anos e virar um escritor, tenho certeza que Quentin não querer vai parar por aí, porque sabe que ainda tem muitos filmes para fazer. Mas o fato é que, independente do que ele resolva fazer daqui para a frente, Quentin Tarantino já estabeleceu a sua própria tradição no cinema. E era exatamente isto que ele sempre quis.
O que Quentin Tarantino vai deixar como legado para a posteridade, são seus filmes de personalidades e estilos completamente distintos um do outro, mas com muitos elementos em comum, dando a sua própria versão para seus estilos favoritos de cinema, e criando assim sua própria mitologia. E ele está sendo muito bem sucedido nesta missão.
Confira no Blog de Brinquedo:
- Réplica Perfeita do Cadillac de Cães de Aluguel!


