As vidas dos outros
Biografias e autobiografias tornaram-se um gênero literário à parte, com as narrativas dos percalços, desventuras, realizações e fracassos de pessoas que, como nós, nutriram amores, aspirações e projetos em suas passagens por este mundo. Escritores como Henry Miller, Pedro Nava, Zélia Gattai e Hunter Thompson notabilizaram-se por seus relatos autobiográficos, enquanto autores como Ruy Castro e Fernando Morais tornaram-se especialistas em narrar as vidas dos outros. E o fato é que ler a respeito de vidas reais, ainda que tenham sido romanceadas por um escritor, desperta o mesmo interesse de filmes que ressaltam em seus créditos iniciais que foram “baseados em fatos reais”; palavras mágicas que dão a uma trama um aspecto de maior autenticidade.
Seja biográfico ou autobiográfico, um texto que se debruça sobre uma vida é uma tentativa de compreensão dos atos de uma existência. Mas será que há algo para ser compreendido em uma realidade que por vezes soa mais dramática do que a mais improvável das ficções? Penso, por exemplo, no impactante parágrafo inicial de “Lady Sings the Blues”, a autobiografia de Billie Holiday: “Mamãe e papai não passavam de duas crianças quando se casaram. Ele tinha dezoito anos, ela dezesseis e eu, três”.
O fato é que saber mais a respeito de vidas alheias faz com que reflitamos a respeito de nossas próprias trajetórias e do mundo que nos cerca. Foi o que me aconteceu, por exemplo, quando li “Histórias de Mulheres“, o belo livro em que a escritora Rosa Montero resgata os perfis quase esquecidos de mulheres como Mary Wollstonecraft, que em 1792 publicou um pioneiro tratado sobre feminismo em tempos nos quais pensadores como Locke, Rousseau e Kant afirmavam convictamente que seres do sexo feminino não deveriam ter acesso a educação, permanecendo submissas aos seus homens. Ou de María Lejárraga, esposa de um dos mais renomados dramaturgos espanhóis do século XX, Gregorio Martínez Sierra. Um falso autor que, na realidade, limitou-se a apenas assinar e receber os créditos por todas as peças que, inacreditavelmente, foram integralmente escritas por sua mulher (sim, por vezes a realidade consegue ser mais inverossímil do que a mais desenfreada das imaginações).
Originalmente publicados na forma de breves perfis biográficos para o jornal El País, os 15 relatos escritos por Rosa Montero são todos igualmente fascinantes. Ao ler o capítulo final, porém, fiquei mais curioso ao descobrir que Montero teria material suficiente para redigir muitos outros livros com a mesma temática. En passant, a escritora espanhola cita em poucas linhas mulheres das quais eu jamais havia ouvido falar, mas que viveram vidas que renderiam narrativas interessantíssimas. Por exemplo, Hipatia de Alexandria (370-415), filósofa, astrônoma e matemática que escreveu tratados algébricos e inventou o precursor do instrumento que hoje conhecemos com o nome de astrolábio. Por defender a racionalidade e recusar-se a converter-se ao cristianismo, foi atacada por uma turba de religiosos fanáticos. Arrancaram-na de sua carruagem, despiram-na e a torturaram até a morte. Depois, teve o seu corpo lançado a uma fogueira. Outro crime tão cruel quanto esse irracional assassinato: todos os seus livros foram destruídos.
Rosa Montero cita ainda no capítulo final de “Histórias de Mulheres” os nomes de Barbara Strozzi, Ada Byron, Emilia Pardo Bazán, Jane Bowles e Alexandra David-Neel; vale a pena escarafunchar livros e sites em busca de informações sobre elas. Afinal de contas, como a escritora espanhola bem define em seu livro, “há uma história que não está na história e que só se pode resgatar apurando o ouvido e escutando os sussurros das mulheres”.


