Add to My Yahoo! Add to Google

Edney Souza

A disciplina do envelhecer

07/08 - 09:14

Envelhecer é fácil, não? Teoricamente não requer muito esforço, basta deixar o tempo passar que você cresce, se curva e desaparece.

Não conheço ninguém que ensine como lidar com os choques de gerações, não parece haver etiqueta adequada para isso, aliás, há, ela diz para não se misturar com aqueles de faixas etárias distintas: “Olha lá o fulano no meio de pessoas mais novas, coitado, faz aquilo para parecer mais jovem”, “Olha lá a ciclana no meio dos mais velhos, ela faz aquilo para chamarem-na de jovem”.

Tenho essa percepção constante de que não querem que nos misturemos com os mais velhos ou mais novos, sempre comentam isso indicando que é alguma crise de idade.  Em contrapartida nos orientam a procurar os mais experientes para aprender e os menos experientes para ensinar. O problema é que envelhecimento e experiência não caminham na mesma velocidade, o que tem causado uma baita confusão por aí.

Você consegue ver a idade de uma pessoa e mesmo nos melhores (ou piores) casos você dificilmente errará a década. Obviamente existem exceções dos dois lados, tanto das pessoas que parecem ser uma década mais novas quanto as pessoas que nunca acertam a idade de ninguém.

Eu sou uma dessas excessões. Não, eu não pareço tão mais novo assim, eu sou do outro tipo, o que nunca acerta a idade de ninguém. Me esforço para conhecer as histórias das pessoas que encontro e não para contar as rugas do seu rosto. Vivo me surpreendendo com a maturidade de alguns e com a imaturidade de outros e confirmo na prática as teorias de que meninas crescem mais rápido.

Desde os 2 anos de idade eu ficava na frente da TV assistindo desenhos animados, tenho quase certeza de que minhas memórias mais antigas são de episódios de animações. Graças a essas lembranças privilegiadas e a indústria do entretenimento que abusa das reprises, consigo conversar com diferentes gerações tomando como base os desenhos que você lembra ou não. Já repararam que todas essas listas do tipo “você se recorda disso?” incluem desenhos animados?

Outra constante em sessões de saudosismo são músicas. Outro dia comentei de um lançamento musical que eu ouvia no começo da adolescência e a canção era mais velha do que alguns jovens presentes. Lembrei de todas as vezes que respondi para amigos mais velhos coisas do tipo “cara, eu não era nem nascido”, era a vingança do tempo me fazendo provar do meu próprio veneno.

Talvez isso também explique minha paixão por leitura, literatura na minha opinião é uma das artes que melhor sobreviveu, encantando igualmente diferentes gerações, mas talvez arte seja algo para os velhos, quanto mais antiga a arte parece que menos jovens interessados existam apreciando-a.

Muito do que se faz na internet hoje já é considerado arte ou será considerado arte num futuro próximo. Uma pena que quando esse conceito de que internet é arte for algo mais genérico eu certamente serei chamado de dinossauro.