Ensaio (?) sobre o ser humano
Embora possa parecer que não, esse texto falará apenas de uma coisa: egoísmo.
Ensaio sobre a Cegueira é um livro de José Saramago, ganhador de Nobel e reconhecido como uma obra-prima da literatura. Usando a cegueira apenas como alegoria, Saramago faz uma profunda, detalhada e cruel análise de quão egoísta o ser humano é.
O livro, primeiro de Saramago que li, quando ainda me aventurava como acadêmico de Direito, foi um dos poucos que me deixou a certeza irrefutável de que ficara mais inteligente após o ponto final. E neste fim-de-semana fui ao cinema ver o que Meirelles havia feito com este marco das minhas parcas leituras. Acompanhado de dois amigos, passei um par de horas angustiado. Ao fim da sessão, lá vamos nós dividir opiniões sobre o filme em si. “Não vou conseguir dormir por uma semana”, dizia a amiga; “Eu não vou falar nada sobre isso agora, minha cabeça está girando”, dizia o amigo.
O trajeto para casa foi de papo animado. Falar do filme era impossível, ainda estávamos impactados pelas cenas finais. No entanto, a história do egoísmo apareceu em segundo. Olhamos mesmo só para o nosso umbigo?, queremos mesmo tudo apenas para nós?, somos egoístas por preguiça, acomodação ou mau caratismo?, os personagens do filme estão mesmo tão distantes de nós quanto é cômodo pensar?. As perguntas, razões e motivações são várias e, partindo da idéia de que este “defeito” não exclue ninguém, só me resta assumir também a minha condição de egoísta.
Então esta semana um amigo me manda um e-mail falando sobre como pensava as amizades dele terminavam se tornando elos de dependência por esforço dele. Ele se dedicava inconscientemente para fazer com que as pessoas se sentissem dependentes dele e ele se sentisse, assim, amado. Barca furada? Claro. Aberração da natureza? Não mesmo.
É mais natural do que se pensa. Acontece nos melhores namoros, nos trabalhos da escola, nas relações políticas, nas reuniões de trabalho… Quando você se dá conta, já passou a coleira em alguém que vacilou por meio segundo. Mas é egoísmo? Claro que é. Convivamos com isso, por que são pouquíssimas as pessoas que realmente têm talento e disposição para serem novos Gandhis. Afinal, até onde você, homem comum, se disporia a se sacrificar por pessoas desconhecidas ou pelo mundo?
Pergunto isso por que nesta segunda-feira, 22, foi comemorado o Dia Mundial Sem Carro. E aqui em São Paulo o movimento foi… um “fracasso“.
Aqui em Sampa eu ando de transporte público. É “barato”, “funciona” e está “bem distribuído”. Dá para o gasto. Mas se carro tivesse, enfrentaria uma hora e meia dentro de ônibus-metrô-ônibus, como faço todos os dias “apenas” para ajudar o meio ambiente? Talvez, e veja ai que não digo nem sim, nem não. O mais provável é que, no fluxo de tudo que chega até mim [e até você, claro], eu nem lembrasse.
Já disse que não tenho como escapar à sina de ser umbiguista e segunda-feira São Paulo não pareceu nem tentar. A foto que você vê ilustrando este texto não é de Sampa, mas sim de Belo Horizonte, que também participou do manifesto. Mas não pense que a coisa aqui foi tão diferente. Os motoristas em São Paulo enfrentaram a mesma quantidade de carros que nos outros dias, com ou sem campanha para diminuição do uso de carros. Uma campanha que pedia o sacrifício de ficar sem carro só por um dia. Só um dia.
Qual terá sido a razão de não ter dado certo?…


