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Alexandre Inagaki

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro

30/09 - 08:30

Domingo de manhã, enquanto fazia um zapping após a decepção com o GP de Fórmula 1 em que a Ferrari destroçou a corrida do Massa com a mesma sanha com que a reprovação do pacote de US$ 700 bi feita pela Câmara dos EUA derrubou as bolsas de valores, eis que encontrei um programa interessantíssimo no canal VH1, intitulado “VH1’s 40 Most Softsational Soft-Rock Songs”. Algo que, em tradução para um português pré-reforma ortográfica, seria o equivalente às “40 Mais Suavesensacionais Músicas do Soft-Rock“. E que, basicamente, foi uma compilação de algumas das melhores músicas que odiamos gostar: babas gravadas por músicos como Peter Frampton, Richard Marx, Toto, Michael Bolton, Air Supply, Chicago, Barry Manilow, Extreme, Christopher Cross. Ou seja, trilhas sonoras típicas de noites em suítes de motel e de dores cavalares de cotovelo, que possivelmente conhecemos por meio dos vinis e fitas K-7 herdados de nossos pais, e que ouvimos com o maior dos guilty pleasures.

Essas canções pop me fizeram lembrar vagamente da nossa música sertaneja de duplas como Zezé di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó, pela maneira despachada e isenta de firulas metafóricas com que suas letras tratam do amor. O que dizer, por exemplo, de uma música com o nome de “Tonight I Celebrate My Love For You” (”Esta noite celebrarei meu amor por você”), de Roberta Flack e Peabo Bryson, que anuncia em seus versos rasgados que o mundo será deixado para trás quando o casal estiver fazendo amor? Do mesmo modo, sai de baixo quando outro casal, Captain & Tennille, anuncia em seu sucesso “Do That To Me One More Time“: “Uma vez só nunca é o bastante com um homem feito você/ Faça isso comigo uma vez mais”.

Além de proibidos para dietéticos, os grandes sucessos do soft-rock têm em comum uma certa melancolia digna dos bardos mais macambúzios. São canções que, como bem descreveu Elton John em seu sucesso “Sad Songs (Say So Much)“, falam mais alto ao peito daqueles cuja esperança terminou. E aí me lembrei do dilema Tostines descrito pelo escritor Nick Hornby em “Alta Fidelidade”, clássico da literatura pop: “Somos tristes por que ouvimos música pop? Ou ouvimos música pop por que somos tristes?”.

Mas, em se tratando de músicas tristes, creio que nenhuma composição supera “Dust in the Wind”, do grupo Kansas. Embora Paulo “Graveheart” Henrique, em um texto intitulado “10 músicas pra quando estou mais pra baixo que barriga de cobra“, considere que a gravação de Sarah Brightman é até mais deprê, ainda fico com a versão original. Neste clássico do soft-rock, o grupo Kansas canta: “Fecho meus olhos somente por um momento/ E o momento se foi/ Todos os meus sonhos passam diante de meus olhos em curiosidade/ Poeira ao vento/ Tudo que eles são é poeira ao vento”. Estes versos, somado ao arranjo suave e ao solo de violino que convida o ouvinte à reflexão, me fizeram lembrar de uma piada clássica do grupo Casseta & Planeta: “Quando vemos que nós somos tão pequenos diante da Terra, e que a Terra é apenas um pequeno planeta dentro do sistema solar; e que o sistema solar não passa de um minúsculo ponto da Via Láctea, que por sua vez é um grãozinho de areia dentro do universo… Quando percebemos tudo isso, pensamos: que puta crise existencial devem ter as amebas, hein?”.

Brincadeiras à parte, esta música do Kansas me fez pensar em seu equivalente no Brasil: “A Lua e Eu”, clássico do soul man Cassiano, que em 1975 gravou também um clipe sensacional para o Fantástico, no qual caminha por uma praia ensolarada enquanto dubla alguns dos versos mais depressivos de toda a história da MPB: “As folhas caem mortas como eu/ Quando olho no espelho/ Estou ficando velho e acabado”.

Perto destes clássicos da fossa, músicas emo definitivamente soam como brinquedo de criança, não?