As preocupações de uma criança de sete anos
Eu tenho uma sobrinha de sete anos. A conheci quando ela tinha seis, mas isso é só um detalhe. Ela é linda. Para mim, não adianta argumentar, ela é a criança mais linda do mundo. Nem Shiloh consegue chegar perto da belezura que é esse rebento, essa criança, essa menina que é a minha sobrinha. A corujice impera em mim e não tento intenção de nem quero negar isso.
Mas ela não é só linda. Ela é esperta também. Gosto de conversar com ela por que sempre fico de boca aberta, só concordando com aqueles olhos cinzas de quem sabe ou quer saber do que está falando.
Ela sabe das coisas, de um monte de coisas. E claro que sabe de tudo isso na sua inocência de criança, quando o sexto sentido é ainda distante de muitas influências exteriores. Ela só sente e vai se informando, pensando, analisando. Tudo nos processos internos dela, tocados pela cabeça a milhão de quem fala de cinco assuntos ao mesmo tempo.
O fato é que ter sete anos sempre significou uma velocidade de raciocínio e aprendizado incríveis. Mas hoje a coisa é diferente. Eva - esse é o nome da minha princesa - fala comigo sobre tudo que ela vê e apreende. Tento ser dela o máximo amigo e o mínimo tio, para que ela esteja sempre à vontade perto de mim. E falar bastante, falar à vontade sobre tudo que ela entende e reflete.
Da última vez que fui ao Rio de Janeiro [para completar a moça é uma carioquinha cheia de charme], ela me recebeu de Nintendo DS na mão. Parecia que o console havia nascido junto dela, tal a intimidade. Conseguindo focar em diversas coisas ao mesmo tempo, Eva conversava comigo enquanto jogava Dogz. Falou da escola, dos amigos, da tosse, de brinquedos…
Em outro passeio, virou para mim e disse que “a Jade Barbosa, tio, da ginática olímpica”, estudava na escola dela. Com tom de quem não precisou pensar muito a respeito, emendou que todas as amigas só falavam disso. “Mas eu nem ligo, tio, não tô nem aí”. Sete anos e já não liga para hypes. Um verdadeiro prodígio, essa minha Vida.
Nada, no entanto, supera a pureza do comentário feito enquanto caminhávamos da sua casa para a casa de uma coleguinha. Eu olhava muito atento para o caminho, cuidando das travessias de ruas e de poças d?água na calçada e Eva olhava muito para mim e para frente, cuidando de me guiar pelo Rio de Janeiro.
Foi então que ela disparou, sem aviso prévio: “tio, eu tenho muita pena de quem não tem casa, de quem passa fome. É ruim, sente frio, não tem o que comer, mora na rua…”. No mesmo instante uma agonia me consumiu a cabeça e o peito e eu só consegui responder um “é verdade, Vida, é verdade”.
Não me recordo se pensei nisso alguma vez na minha infância. Se pensei, é algo que minha memória ignora completamente. Mas esse é o menor do meus problemas. O maior deles foi Eva quem me mostrou e eu não posso ignorar: quando foi que eu perdi a minha capacidade de sentir “pena” por quem precisa de ajuda, de me importar com as coisas que acontecem ao meu redor e pior ainda, não ligar para isso? Quando foi que eu preferi dizer para mim mesmo que os compromissos do meu dia-a-dia me impediam de fazer algo por alguém que não seja o meu umbigo? Por que tenho a péssima sensação de que, de um jeito ou de outro, o mesmo distanciamento proposital vai acontecer com a minha pequena?


