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Nick Ellis

O Grande Concerto no Céu

03/10 - 09:26

Faleceu no mês passado, depois de uma curta luta contra uma doença inominável o grande tecladista Sir Richard Wright. Não vou me alongar aqui em quanto gosto desta banda, o que você deve perceber pelo tamanho do texto, mas a verdade é que eu sempre considerei Pink Floyd uma das minhas favoritas de todos os tempos.

Outro dia eu ouvi falar que rock progressivo era um saco, neste caso eu sempre sugiro escutar pelo menos Dark Side of the Moon ou Wish You Were Here antes de falar a respeito. Se você não conhece o Pink Floyd, é só continuar lendo este texto, até o final você vai conseguir entender pelo menos parte do fanatismo que cerca a todos que, como eu, são fãs desta banda.

Tudo começou com Syd Barret e Roger Waters, dois garotos de Cambridge que amavam os Beatles e os Rolling Stones. Roger foi para a faculdade de arquitetura e Syd para a escola de artes.

Nosso homenageado Rick Wright conheceu Roger Waters e o baterista e meu xará Nick Mason aprendendo arquitetura. Músico auto-didata, Rick era a prova de que certas pessoas já nascem sabendo, porque a sua única formação musical foram duas semanas de aulas de piano na London College of Music. Os três amigos Syd, Roger e Rick criaram uma banda que teve vários nomes malucos como Sigma 6 e Abdabs, e acabou se chamando Pink Floyd.

Pink Floyd é uma mistura entre os nomes dos músicos de Blues americanos Pink Anderson e Floyd Council, que Syd viu em um encarte de um disco de Blind Boy Fuller. Syd Barret era o destaque principal, cantor, guitarrista e compositor da maioria das músicas, ele também era uma espécie de gênio maluco, que se comportava de forma estranha nos shows e muitas vezes simplesmente não aparecia.

Antes de formar a banda, Syd Barret teve aulas de guitarra com David Gilmour, que logo iria substituí-lo na banda, e ajudaria a tornar o Pink Floyd uma lenda. Foi no final de 1967 que Roger Waters chamou David para dar uma força na guitarra, porque a condição de Syd estava insustentável.

Muitos criticaram David por supostamente plagiar o estilo de Syd, mas na verdade foi ele mesmo que ensinou as técnicas de slide guitar e as manhas dos pedais echo. Syd já não era mais o mesmo e foi dispensado. Ele ainda conseguiu gravar dois discos com as composições que sobraram do tempo do Pink Floyd, antes de parar em um hospício e virar um pacato jardineiro.

Foi a partir de 1970 que o Pink Floyd entrou na sua fase de ouro, produzindo pérolas como Meddle, com a interminável e incrível Echoes e a clássica One of These Days, I?m going to cut you into little pieces e Dark Side of the Moon. O estilo espacial era marcado por solos de guitarra inconfundíveis do mestre David Gilmour e o teclado psicodélico de Rick Wright, muito bem acompanhados por Nick e Roger.

O Pink Floyd sempre pensou longe, muito além do som que produziam. Desde o início da banda já existia a preocupação em fazer um espetáculo, e não apenas um show, caprichando em vídeos e imagens psicodélicas. A tela redonda até hoje é reconhecida como uma marca registrada do Pink Floyd, e qualquer um que use uma tela assim em seus shows vai estar simplesmente copiando estes quatro ingleses.

Na hora de gravar um show, eles decidiram inovar, e levaram a equipe inteira para Pompéia, onde gravaram uma apresentação sem platéia no meio das ruínas. Foi aí que nasceu Dark Side of the Moon, um dos discos mais influentes da história da música. Uma das composições mais memoráveis do álbum é The Great Gig in the Sky, que foi escrita e brilhantemente interpretada por Rick Wright com o auxilio da cantora Clare Torry. Rick também sempre cantou no Pink Floyd, e engrandece a música Time, uma das minhas favoritas do grupo.

Dark Side é o terceiro álbum mais vendido no mundo inteiro em todos os tempos (descontando compilações e coletâneas) e o vigésimo mais vendido nos Estados Unidos. Ele conseguiu a proeza de ficar quatorze anos no ranking de 100 mais vendidos da Billboard, até ser removido por uma mudança nas regras.

E o álbum seguinte também não ficou atrás. Wish you Were Here era uma homenagem ao ausente Syd Barret, em músicas perfeitas como a faixa título e Shine on your Crazy Diamond. Durante a gravação de Animals, os primeiros problemas. A fama e o dinheiro eram abundantes, e o ego de alguns integrantes da banda ultrapassava a estratosfera. O fato de só fazerem shows em arenas gigantescas para centenas de milhares de pessoas também não ajudavam, e foi daí que Roger se inspirou para criar o conceito de The Wall, que era um muro entre a banda e a sua platéia.

Em 1978, Wright gravou um disco solo muito bom, e a tensão com Waters aumentou. A coisa se agravou nas gravações de The Wall em 79, quando Roger Waters demitiu Rick Wright do posto de tecladista, e o contratou como músico de estúdio, e depois para a turnê de lançamento. Ele nem chegou a participar do álbum The Final Cut, que havia sido planejado por Roger para ser o último disco do Floyd.

A grande força do Pink Floyd era a união entre a guitarra viajante de David e o teclado de Rick com as magníficas letras de Roger Waters, tudo na batida de Nick Mason, e por isto a saída de Rick foi uma pena, mesmo que ele tenha sido muito substituído pela orquestra do também saudoso Michael Kamen.

Só que David Gilmour resolveu remontar a banda em 1987, com a gravação do disco Momentary Lapse of Reason. Rick também fez parte do projeto mas de forma discreta, e só foi reintegrado oficialmente na turnê do disco The Division Bell, em 1994. Depois disto, Rick continuou sua carreira solo com mais dois projetos.

Em 2005, finalmente o Pink Floyd se reuniu com a formação clássica durante o Live 8, para delírio dos fãs que estavam presentes. David e Roger, eternos implicantes, pareciam estar se dando muito bem, o que me renovou as esperanças de realizar o sonho de ver o show deles ao vivo. Com a partida de Richard Wright, que será muito sentida, isto não mais acontecerá, mas pelo menos este ano consegui ver o show do Roger Waters, e ainda pretendo ver o do David Gilmour.

Se você chegou até aqui e continua sem vontade de ouvir Pink Floyd, não tem problema, mas se quiser ouvir, é só visitar a minha página no Blip.fm, onde você também vai encontrar uma seleção de músicas das trilhas sonoras do Tarantino, que eu fiz quando escrevi aquela coluna.

Como disse Roger Waters em Time, ?o tempo se foi, a música acabou, apesar de eu ainda ter mais para dizer…? Até a próxima semana!