Diálogos que não existiam
Em 1962, John Ford dirigiu um western intitulado “The Man Who Shot Liberty Valance” (que recebeu no Brasil o título de “O Homem que Matou o Facínora”), estrelado por James Stewart, John Wayne e Lee Marvin. O título original do filme é a chave para seu entendimento. Na trama, James Stewart interpreta um advogado idealista que chega a Shinbone, Arizona, uma cidade incrustada no velho oeste, e crê piamente que os homens poderiam se entender na base de conversas e respeito à lei, em vez dos duelos à base de pistolas comuns naqueles tempos. O advogado logo arrebata o coração da dona do restaurante da cidade, que era amada platonicamente pelo personagem de John Wayne, um cowboy à moda antiga. O conflito da trama é desencadeado quando chega em Shinbone um criminoso temido em todo o velho oeste: Liberty Valance, interpretado por Lee Marvin. Após causar encrencas com toda a cidade, Liberty humilha o personagem de Stewart na frente da dona do restaurante. O advogado é obrigado a rever seus princípios e agir de acordo com os costumes daqueles tempos: desafia Valance para um daqueles clássicos duelos no meio da rua.
Para o estarrecimento geral da cidade, o mocinho idealista acerta o facínora encrenqueiro com um tiro certeiro e torna-se o herói do dia. Ganha fama em todo o oeste, e a partir daquele duelo vitorioso decola para uma bem-sucedida carreira política que o transformaria em senador. Muitas décadas depois, o consagrado político retorna para a velha cidadezinha de Shinbone, a fim de acompanhar o enterro de um velho cowboy que morreu pobre e esquecido. Ao ser indagado por um jornalista quem era aquele falecido, eis que a história dá uma reviravolta, quando o personagem de James Stewart revela os fatos: na verdade fôra o cowboy de John Wayne o autor do tiro que matou Liberty Valance. Por amor à dona do restaurante que havia se apaixonado por aquele advogado ingênuo, Wayne permitiu que outra pessoa levasse os créditos pela morte do assassino sanguinário, e caiu no esquecimento. Após revelar a verdade, Stewart pergunta ao repórter quando é que ele iria publicar a história real da morte de Valance. É nesse momento que o jornalista profere o diálogo mais famoso desta obra-prima de John Wayne, e diz:
- Quando uma lenda torna-se fato, publicamos a lenda.
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O cinema é a arte da ilusão. A fim de ilustrar esta frase, basta lembrar de alguns dos diálogos mais famosos de todos os tempos, e que no entanto não foram proferidos em suas obras originais. A seguir, os exemplos mais expressivos do que digo.
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- Me Tarzan, you Jane.
Em “Tarzan, o Homem-Macaco”, filme dirigido por W.S. Van Dyke em 1932, a cena clássica que mostra o encontro entre Tarzan (interpretado por Johnny Weissmuller, ex-campeão olímpico de natação) e Jane Parker (Maureen O’Sullivan) apresenta o seguinte diálogo:
Jane: - (apontando para si mesma) Jane.
Tarzan: - (ele aponta para ela): Jane.
Jane: - E você? (ela aponta para ele) Você?
Tarzan: - (batendo com a mão no peito) Tarzan. Tarzan!
Jane: - (enfatizando a resposta correta) Tarzan…
Tarzan: - (apontando o dedo para lá e para cá) Jane. Tarzan. Jane. Tarzan…
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- Elementary, my dear Watson.
É curioso constatar que o bordão clássico de Sherlock Holmes, “elementar, meu caro Watson”, jamais foi redigido em nenhum dos textos escritos pelo seu criador, o escritor Sir Arthur Conan Doyle, que criou quatro novelas e 56 contos estrelados pelo detetive, publicados entre 1887 e 1927. Cerca de 200 filmes aproveitaram o personagem de Conan Doyle. Dentre eles, “O Retorno de Sherlock Holmes”, dirigido e roteirizado por Basil Dean em 1929. Este longa-metragem, apesar de ter recebido críticas negativas na época, possui um mérito singular: foi neste filme que a frase “elementar, meu caro Watson” foi cunhada, tornando-se a mais famosa das expressões de Sherlock Holmes, a despeito do fato de que não aparece em nenhum dos romances escritos por Conan Doyle.
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- Play it again, Sam.
Nem Rick Blaine (Humphrey Bogart), nem Ilsa Lund (Ingrid Bergman). O diálogo mais famoso de “Casablanca”, o clássico dirigido por Michael Curtiz em 1942, não é falado no filme. Ao solicitar ao pianista Sam (Dooley Wilson) para que toque a música que marcou seu romance com Rick, Ilsa na realidade diz:
- Play it, Sam. Play “As Time Goes By”.
Já o personagem de Bogart é mais ríspido em seu pedido:
- You played it for her, you can play it for me! If she can stand it, I can! Play it!
A fala “Play it again, Sam” na verdade foi pronunciada pela primeira vez em “Uma Noite em Casablanca”, filme que os irmãos Marx estrelaram em 1946. E no entanto, nove entre dez cinéfilos não pestanejariam em jurar que ouviram tal diálogo através dos lábios de Bogart ou Bergman. Coisas da sétima arte…


