O eterno e inédito registrar
Se você tem mais de 20 anos, é muito provável que o máximo de registro da sua infância que você tenha sejam fotos e VHS.
Como já falei aqui em outra oportunidade, tenho uma sobrinha. A criança mais linda do mundo. Esperta, inteligente, educada, todos os elogios seriam insuficientes pra precisar tudo que me chama atenção nela.
Conversava ontem com Liv Brandão sobre a última “travessura” da minha pequena. Em uma apresentação da escola, a turma dela ficou com a temática do ano de 68. A trilha sonora tem Geraldo Vandré e Caetano Veloso e ela entra em cena com uma cara tímida… mas logo se solta por que, desafinando o coro dos contentes, ela está interpretando a Twiggy, a primeira top model e a primeira mulher a usar uma mini-saia.
Bom, falava com a Liv sobre isso por que esse personagem, se bem conheço minha irmã/mãe dela, não caiu no colo da minha sobrinha sem uma boa explicação do que aquilo representava. Que era motivo de orgulho ver minha sobrinha tem esse espírito ?contestador?, ainda mais estudando numa escola católica.
De repente, me veio o clique. Minha sobrinha tem gigas e mais gigas de fotos desde o seu nascimento. As primeiras caretas, os primeiros dentes, as primeiras travessuras, está tudo registrado. Em vídeo também. Lá estão as danças, as apresentações do Dia do Folclore… A grande maioria desse conteúdo está disponível na internet, seja para dividir com os parentes distantes as últimas notícias da pequena, seja para mostrar ao mundo como é especial aquela criaturinha.
E você, o que tem de registro da sua infância disponível na internet? Os vídeos caseiros dos seus pais estão no YouTube? Você escaneou, tratou e subiu todas as suas fotos de infância para uma conta do Flickr ou para o seu perfil do Orkut? Imagino que não, e que não há quem tenha feito isso [embora sempre tenha alguém para quebrar a beleza de uma verdade absoluta].
Então eu lembro da história que um professor meu de Teoria da Comunicação na faculdade de Jornalismo, o mestre e amigo Gustavo Said, gostava de contar. Orgulhoso, ele falava da filha e dos registros que fizera desde o nascimento da pimpolha. Desde o nascimento mesmo, já que ele tem vídeos dela desde o parto. Ele gostava de dizer em aula, numa realidade pré-YouTube, pré-Orkut, pré-Fotolog, que seria incrível sua filha confrontar, quando adolescente, o registro do seu nascimento.
Imagino que hoje meu professor tenha aposentado a câmera de mão JVC analógica e apostado num registro digital. E suba os vídeos pro YouTube, Videolog, Vimeo…
Então temos ai uma linha evolutiva da exposição de nossos pimpolhos. Nossos pais têm fotos em preto-e-branco; nós, fotos coloridas e os mais afortunados, vídeos em VHS. Agora pare para pensar. Nossos filhos [ou sobrinhos, no meu caso], têm câmeras digitais daquelas que registram qualquer ida boba à praça do bairro até aquelas que cabem no seu celular e podem garantir a posteridade dos primeiros passos ou das primeiras palavras.
Nossos filhos nascem e nascerão com Orkut, YouTube, Facebook, blogs, Flickr, Fotolog, Multiply… Numa exposição jamais vista e que está apenas no início. Fico imaginando daqui a seis anos, quando minha sobrinha pensar pela primeira vez em googlar seu nome completo e se deparar com as declarações apaixonadas dos tios nos blogs e aqui nestes textos, as fotos no Multiply da mãe, o vídeo no YouTube, as fotos no fotolog da tia… Ela não vai estranhar nada, nada, vai ser uma coisa incrivelmente natural. Estranho vai ser eu sentar com ela e mostrar os meus álbuns de fotografia…


