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Gilberto "Knuttz" Soares

Inversão de prioridades

21/10 - 11:30

Mandar matar é um termo forte, impactante e frio. Fazer cessar a vida de outra pessoa através de uma ordem ou autorização dada, não apenas é uma solução brutal, como também é extrema e trágica. Mas às vezes é a única que resta, e autoridade policial tem poder de empregar a força mortal para defender um cidadão, e DEVE empregá-la quando a situação assim o exige.

Sim, eu me refiro às cem horas de drama vividos por duas jovens e um seqüestrador dentro de um apartamento, e pelo Brasil através dos informativos, na semana que passou, e que acabou com uma triste inversão de posições, um seqüestrador vivo, a jovem Eloá morta, e sua amiga Nayara alvejada na boca, mas felizmente viva.

Não sou psicólogo, muito menos especialista em segurança, mas já fiz e vi muitas negociações, e obviamente sempre há um jogo de força entre as partes, com cada uma tentando fazer o melhor negócio possível para si, mas em situações extremas, qualquer uma delas pode simplesmente desistir, se retirar da negociação e procurar solução alternativa para seu problema. O pior de todos os cenários para um negociador, é justamente não poder se retirar da negociação, ser forçado a negociar ad infinitum. Chega-se ao ponto em que todo e qualquer esforço é infrutífero, qualquer ação é inócua, e tudo se transforma em um grande jogo de empurra que só faz cansar, com o resultado tendendo ao impossível com o passar do tempo.

Infelizmente é este cenário, de negociação sem a possibilidade de medida drástica, que se pode ver nas entrelinhas dos fatos ocorridos na semana passada; nenhum negociador minimante treinado partiria para um movimento de tão claro desespero, como o de enviar de volta ao cativeiro uma refém já liberta, pior ainda uma MENINA de 15 anos de idade, se não tivesse a liberdade de agir da forma correta. Não consigo acreditar que uma pessoa treinada fizesse tal coisa por opção.

A Revista Época (Ed.5441) apurou com o setor de negociações do FBI que 78% dos casos de seqüestros passionais terminam com vítimas fatais, número que você e eu normalmente não saberíamos, mas que por obrigação um negociador treinado deveria saber. Tudo indicava um resultado com vítimas fatais, por que então correr o risco desta vítima ser uma ou ambas as meninas? Por que, então, não tomar a decisão de preservar a vida da vítima ordenando um tiro fatal no seqüestrador? Eu só vejo três possibilidades, uma é a incompetência pura e simples. Mas será que nenhum dos quatro negociadores, nem seus chefes, tinham dados estatísticos que a Revista Época tão facilmente apurou? Pressão política, em tempos pré-eleitorais? Ou medo da reação da mídia?

Em sua entrevista coletiva, o coronel Eduardo José Felix deixou bem claro, mas vocês não deverão ler isso em outro local - já que foi solenemente ignorado pela imprensa - que estava sendo criticado pela mídia por ter tomado o caminho de paciente negociação, mas que se tivesse tomado o caminho da eliminação do seqüestrador estaria, também, sendo criticado. Vou um pouco mais além, se ele tivesse tomado a decisão de eliminar o seqüestrador, a este momento já teríamos “N” entidades de direitos humanos execrando o ocorrido, e querendo a cabeça de quem ordenou o tiro.

Mas o fato é que a autoridade policial DEVE agir em defesa do cidadão, contra quem atenta à sua vida. É muito triste ver que a pessoa errada morreu semana passada simplesmente porque alguém não teve a coragem de tomar a decisão correta.