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Pedro Jansen

A caixa mágica

22/10 - 20:30

É uma doença. Um vício. Começou na infância, passou pela adolescência e hoje só é vencido graças ao trabalho.Ok, é drama dizer que sou viciado em televisão, mas essa caixa mágica exerce um poder bizarro sobre mim. É assim que acontece: onde quer que eu esteja, o que quer que esteja passando, qualquer que seja o volume, lá estou eu de olhos grudados. Atento. E reclamo se mudar de canal. Aliás, pouca coisa me deixa mais chateado do que o zapping incessante.

Como dito no começo do texto, a coisa começou na infância. Eu fugia dos estudos para ver TV. Desenhos animados, jornais, jogos de futebol, novelas… nada me escapava. Eu gostava tanto da programação da Globo quanto da Cultura. Eu assistia o Faustão, eu via Cavaleiros do Zodíaco e Doug Funny…

Nas férias, era comum passar boas manhãs vegetando na cama olhando para a caixa mágica. Quando não estava passando nada de bom, um livro me acompanhava. Quando eu cansava de ver TV, lá ia eu dar uma volta de bicicleta. Mas o espaço dela esteve sempre lá.

Ganhei esse costume com meu pai. Sempre que ele chegava do trabalho para o almoço, uma das primeiras coisas que fazia era ligar o rádio que ficava na sala. Depois de um tempo, já com uma TV ocupando o Gradiente que transmitia AM/FM, o áudio foi substituído pelo vídeo. A programação era basicamente feita por jornais sensacionalistas e aquilo me fascinava. A comida esfriava no prato, eu me atrasava para a escola…

Foi na escola que li um livro chamado “O Menino sem Imaginação”, que falava de um garoto que via TV 100% do tempo em que ele estava acordado e fora da escola. E aí, um dia, por ironia do destino, todas as TVs param de funcionar e ele se descobre sem capacidade de imaginar nada. Não cheguei a esse ponto, mas o personagem sempre me pareceu bem curioso.

Existe um charme em dizer “não vejo TV, não há nada lá que me agrade…” e na faculdade eu fui acometido desse mal. Quase fico surdo de tanto ouvir música, mas a a TV foi ficando de lado. Até que, de um tempo pra cá, sempre que vou a botecos ou a lanchonetes com a tal caixa ligada, minha atenção se perde. Sento inclusive longe, de costas, para dedicar atenção à comida ou à companhia.

Por falar em companhia, quando morava sozinho, a TV era quem ficava comigo a maior parte do tempo. Nos fins de semana, quando acordava tarde e tinha várias coisas a fazer, eu primeiro tomava um copo de água, depois ligava a TV e por fim o iPod. Só para ter para onde olhar de vez em quando. Só para estar conectado à programação ou à ordem dos seriados. Por pura e simples curiosidade.

E no fim das contas, o que me mantém preso a isso é apenas a curiosidade. A mórbida curiosidade que me fez perguntador quando criança, intrometido e inconveniente quando adolescente e por fim, jornalista quando “adulto”. A mesma curiosidade que me levava a andar de bicicleta e descobrir o bairro ou ler todos os livros indicados para a escola antes do ano letivo começar….