Pedras preciosas da ilusão
Falando friamente, lágrimas nada mais são do que uma composição de água com cloreto de sódio. Mas é lógico que falar de choro é falar de emoções. E, em tempo de Olimpíadas, as lágrimas derramadas pelos atletas são uma constante. Que o diga João Derly, bicampeão mundial de judô que, apesar de não ter nada o que justificar diante de sua carreira vitoriosa, desabou em prantos quando foi entrevistado pelos jornalistas momentos após sua derrota para o judoca português Pedro Dias, pedindo desculpas a todos que torciam por ele. Ou Daiane dos Santos, que, ao ver a emoção de suas colegas da seleção brasileira de ginástica momentos após a classificação da equipe a uma final inédita em Jogos Olímpicos, pediu a elas que guardassem a emoção para depois: “Sem choro, sem choro”.
Sejam elas reprimidas ou externadas, as lágrimas sempre marcam as Olimpíadas. Na emoção do atleta que sobe ao pódio, na tristeza daquele que é derrotado, no espectador que se comove com as emoções do esporte e derrama um pranto solidário com as alegrias e tristezas daqueles que passaram quatro longos anos preparando-se para a competição mais importante de suas vidas. Nesses momentos, lembro da precisa definição poética cunhada por Paulinho da Viola em sua composição “Quanto Bate Uma Saudade”: “lágrimas são as pedras preciosas da ilusão”. Ao recordar esses momentos, não posso deixar de lembrar de uma história olímpica relatada por Mauricio Cardoso no livro “Os Arquivos das Olimpíadas”.
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Tóquio, Olimpíadas de 1964. Aída dos Santos, 27 anos, é a única mulher de toda a delegação brasileira, a única representante do Brasil no atletismo, a única negra a competir nas finais do salto em altura. Está só, mas já se acostumou a isso. Quando começou a praticar atletismo, teve que enfrentar a resistência do pai, que lhe dizia: “Pobre tem mais é que trabalhar, esporte é coisa pra vagabundo”. Como retrucar aquelas palavras duras, morando em um país que não dava o mínimo apoio aos seus atletas? Em especial no caso de Aída, moradora do morro de Arroz, favela de Niterói, no Rio de Janeiro.
Aída viajou para as competições sem técnico, sem médico, sem massagista. Nem mesmo o uniforme da delegação recebeu. Para competir, foi obrigada a reaproveitar um verde e amarelo surrado, herança do último campeonato-sul americano, além de uma sapatilha específica para atletas de 100 metros rasos, uma vez que ela não tinha o sapato de pregos específico para as competições de salto. Se não fosse a solidariedade olímpica, talvez Aída nem conseguisse participar das competições. Nos treinos, recebeu as orientações do atleta peruano Roberto Abugatas. Quando torceu o pé entre uma sessão e outra de saltos, foi atendida pela equipe médica de Cuba. Na manhã do dia 15 de outubro de 1964, quando saiu da Vila Olímpica para as disputas, nem votos de boa sorte recebeu dos dirigentes. As únicas palavras que ouviu foram:
- Te esperamos para o almoço, Aída.
E no entanto, Aída surpreendeu a todos. De manhã, conseguiu passar a final ao saltar inacreditáveis 1,70m, cinco centímetros além do seu antigo recorde pessoal. À tarde, já durante as finais do salto em altura, superou novamente os 1,70m, e chorou de emoção. Repetiu as lágrimas a cada novo obstáculo superado: atingiu os 1,72m, depois os 1,74m. E chorou, mais uma vez, após perder a terceira e última chance de passar a barra alçada a 1,76m do chão. Aída perdeu, ali, a chance de conquistar uma medalha. Em compensação, Aída dos Santos havia se consagrado como a quarta melhor saltadora do mundo. Era, simplesmente, a melhor colocação de uma brasileira nas Olimpíadas em qualquer esporte, em qualquer tempo.
Porém, naquele momento inesquecível, diante de setenta mil pessoas que lotavam as arquibancadas do Estádio Olímpico de Tóquio, não havia por lá nenhum colega brasileiro com quem Aída pudesse compartilhar aquele feito histórico. Tomada por uma imensa solidão, Aída mais uma vez chorou.
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Na manhã desta segunda-feira, a judoca Ketleyn Quadros conquistou uma medalha de bronze, tornando-se a primeira mulher brasileira a subir ao pódio em uma prova olímpica individual. Até então, o quarto lugar de Aída dos Santos permanecia intacto como a melhor marca individual de uma atleta do país, apenas igualada pela quarta colocação obtida por Natália Falavigna no taekwondo, em Atenas, 2004. Mas o lugar de Aída, que também é mãe da ponta Valeskinha, jogadora da seleção feminina de vôlei, permanecerá intacto na história dos esportes olímpicos brasileiros como um dos maiores feitos de sua História.
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Pequim reservará ainda muitas emoções pela frente, e espero que as próximas lágrimas a serem derramadas sejam de alegria e satisfação. Mas devo confessar que, de todos os choros olímpicos, considero que o mais inesquecível deles não foi pranteado por nenhum atleta; trata-se da lágrima que Misha, o urso-mascote das Olimpíadas de Moscou em 1980, derramou na festa de encerramento daqueles Jogos…


