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Alexandre Inagaki

Sobre as eleições municipais de 2008

27/10 - 15:00

A principal marca das eleições deste ano foi o desejo de continuidade. Dos 20 prefeitos de capitais que lançaram candidatura à reeleição, 19 foram reeleitos; a única exceção à regra foi Manaus, cidade na qual o atual prefeito Serafim Corrêa (PSB) foi derrotado por Amazonino Mendes (PTB), ex-governador do Amazonas. Porém, essa tendência ao continuísmo expresso nas urnas foi reflexo da boa situação econômica do país, que ainda não foi severamente afetado pela recente crise econômica mundial. É de se perguntar como as urnas responderiam a um cenário de quedas nas arrecadações municipais, aumento dos índices de desemprego e corte nos investimentos públicos.

Outro fato marcante das eleições 2008: os expressivos resultados obtidos pelo PMDB. Um partido que, desde que José Sarney assumiu a Presidência do Brasil em 1985, esteve sempre no poder. E que, curiosamente, trata-se de uma legenda que não possui uma liderança política nacional com musculatura eleitoral suficiente para capitanear uma candidatura presidencial há tempos, estando sempre no reboque de alguma coligação. Foi o que aconteceu em 2002, por exemplo, quando a peemedebista Rita Camata foi candidata a vice na chapa do tucano José Serra. E em 2006, quando o PMDB esteve alheio à disputa presidencial entre Lula e Alckmin e concentrou-se em eleger o maior número de governadores possível. Uma sigla camaleônica, cuja biruta sopra ao vento de quem estiver no poder, o PMDB compõe atualmente a base de aliados do governo Lula, ganhou vários ministérios em troca e ainda detém a presidência do Senado. E, graças a essa estratégia de estar sempre no governo, mais uma vez os peemedebistas celebraram o fato de terem eleito a maior quantidade de prefeitos por todo o país: 1.201 prefeituras, contra 786 do PSDB, 559 do PT, 555 do PP e 500 do DEM.

Enquanto tucanos e petistas anteciparam as eleições presidenciais de 2010 e digladiaram-se por todo o país, o PMDB não tem do que reclamar. Em São Paulo, compôs a chapa vitoriosa de Gilberto Kassab, apoiada pelo governador José Serra. No Rio de Janeiro, elegeu Eduardo Paes prefeito, com a ajuda da máquina administrativa federal, da máquina administrativa estadual comandada pelo governador Sérgio Cabral Filho, e ainda contando com o apoio da Igreja Universal do Reino de Deus, das milícias da periferia e de setores da “esquerda”. O PMDB conquistou ainda Porto Alegre e Salvador, derrotando em ambas as capitais candidatos do PT, e levou a fatura também em Goiânia, Campo Grande e Florianópolis. E no entanto, apesar de ter eleito prefeito em diversas capitais e inúmeras cidades de grande, médio e pequeno porte, o PMDB não tem ainda nenhuma opção para disputar a eleição mais majoritária do país. Um reflexo do balaio de gatos ideológico de seu partido, que reúne nomes que tendem a apoiar Serra em 2010 (como Orestes Quércia em São Paulo e Jarbas Vasconcelos em Pernambuco), outros que compõem a base de apoio do governo Lula (como José Sarney no Amapá e Edison Lobão no Maranhão) e outros que ainda são uma incógnita, como o casal Garotinho no Rio ou o atual Ministro da Integração Geddel Vieira Lima, que derrotou o candidato do PT em Salvador, e prepara-se para disputar o governo da Bahia contra o atual governador, o petista Jaques Wagner, daqui a dois anos.

No melhor dos cenários futuros para o PMDB, José Serra ganha a disputa interna com o Aécio Neves para disputar a Presidência pelo PSDB, e o governador mineiro mudaria então para a legenda mais esquizofrênica do Brasil, que teria enfim chances reais de deixar de ser sigla coadjuvantes dos tucanos e petistas. Aguardemos para ver. Enquanto isso, o PT, que apesar de ter conseguido eleger mais prefeitos e vereadores do que em 2004 sabe que trata-se de um partido que ainda não possui uma liderança nacional do mesmo porte de Lula, tenta pavimentar terreno para que a Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, torne-se uma candidata viável à sucessão de seu maior nome. Os baques em cidades como Porto Alegre, Salvador, Santo André e principalmente São Paulo (onde Marta Suplicy teve um desempenho decepcionante, ao receber menos votos do que nas eleições municipais de 2004, e ainda tendo sido derrotada em 41 das 57 zonas eleitorais paulistanas), fez com que fosse acesa uma luz amarela na cúpula petista, que agora terá de gerir os dois anos restantes do mandato presidencial sob as conjunturas ainda nebulosas da economia mundial.

No estado mais populoso do país, tanto a petista Marta Suplicy quanto o tucano Geraldo Alckmin saem menores destas eleições. A campanha desastrosa de Marta, além de não ter resgatado os votos da classe média apesar de promessas mirabolantes como internet para todos e 47 quilômetros de metrô, ainda por cima decepcionou setores do seu eleitorado cativo, em especial da militância gay do PT, que se decepcionou com o vídeo polêmico no qual a campanha petista questionava o porquê de Kassab ser solteiro e sem filhos, e também da Zona Sul da capital (onde Marta teve menos votos do que no primeiro turno de 2008 e nas eleições de 2004). Enquanto isso, Alckmin impôs sua candidatura a fórceps, enquanto a maior parte do seu próprio partido preferia apoiar Kassab, e terminou as eleições em um decepcionante terceiro lugar, sendo obrigado a dar um abraço de sorriso amarelo ao prefeito que acabou sendo reeleito.

O Rio de Janeiro merece um parágrafo à parte por ter legado a maior novidade de todas estas eleições: a campanha quase quixotesca de Fernando Gabeira. Filiado a um partido de pouca expressão eleitoral, o PV, e coligado com um PSDB que no Rio de Janeiro é anêmico, a candidatura de Gabeira surpreendeu positivamente ao chegar ao segundo turno na frente do outrora favorito, o senador Marcelo Crivella (PRB). Depois, disputou o segundo turno contra Eduardo Paes, apoiado por Lula, Sérgio Cabral, Crivella, Jandira Feghali e milhares de cartazes e panfletos apócrifos espalhados pela cidade numa campanha que ficará marcada pela sujeira, tanto literal quanto metafórica. Porém, não é possível negar que Gabeira prejudicou sua própria campanha ao falar demais: chamar a vereadora mais bem votada do Rio, a tucana Lucinha, de “analfabeta política” e “suburbana”, foi dar munição a um adversário que depois ainda capitalizou outra citação do deputado verde a respeito de “sambistas de Paes atraídos pela feijoada”. Em uma eleição que foi decidida no photochart, detalhes tão pequenos são coisas muito grandes pra se esquecer.

Por último, mas não menos importante, ressalto o fato de que nada menos do que 927.250 eleitores cariocas (20,25% do eleitorado) deixaram o seu dever cívico de lado e cabularam as eleições. Enquanto isso, a diferença nas urnas entre Paes e Gabeira foi de pouco mais de 55 mil votos. Espero que eles aproveitem bem o feriado municipal decretado por Sérgio Cabral nesta segunda-feira.

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Textos relacionados: “Não seja imbecil, vote consciente” (http://www.interney.net/blogs/inagaki/2006/09/26/nao_seja_imbecil_vote_consciente/), post que escrevi durante as eleições de 2006, mas que lamentavelmente permanece atual, e “Gabeira só ganha quando perde” (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_post=135705), excelente reflexão feita por Ricardo Noblat.