A bossa nova de André Midani
O livro de André Midani, “Música, Ídolos e Poder” conta a história de uma daquelas vidas que dariam um filme, ou melhor, um grande filme, um verdadeiro clássico instantâneo. As histórias de André são sensacionais, e vão agradar em cheio a todos aqueles que respiram música, e se você também é uma destas pessoas, eu recomendo que leia este livro o quanto antes. André Midani fez muito pela música ao redor do mundo, especialmente no Brasil, afinal ele foi o executivo responsável pelo lançamento da Bossa Nova, que revolucionou a nossa música.
Nascido em Damasco, na Síria, André logo foi morar na França, e ainda criança, sobreviveu aos perigos da ocupação Alemã, além de ter testemunhado ao vivo o desembarque das tropas aliadas no ?Dia D?! Sua mãe tinha uma confeitaria, e com o tempo, Midani se tornou um confeiteiro dos bons, mas a sua paixão pelo Jazz não dava trégua. Ele acabou conseguindo um emprego na famosa gravadora Decca, onde começou por baixo, mas logo subiu de posição e vivia a vida dos seus sonhos, até que a guerra da França contra a Argélia acabou com o seu sossego.
Ao desembarcar na Baía de Guanabara, André se sentiu em casa, e com a cara e a coragem, foi trabalhar na gravadora Odeon, onde se tornou parceiro de Aloysio Oliveira, que havia tocado na banda de Carmem Miranda. Lá ele percebeu que os jovens eram um imenso mercado a ser explorado, só faltava encontrar a música certa. Depois que Dorival Caymmi o apresentou ao jovem cantor João Gilberto e a sonoridade inovadora da Bossa Nova, Midani não teve mais dúvidas. Ele apostou nestes novos artistas e lançou o movimento nas rádios, enfrentando o preconceito de muitas pessoas no mercado da música. Só que o sucesso foi total, e em pouco tempo Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto se tornaram verdadeiros ícones do Brasil.
André saiu da Odeon mas continuo trabalhando para a empresa, criando a sua firma Imperial, que vendia discos de porta em porta, algo impensável hoje em dia, mas que deu muito certo naquela época. O sucesso levou Midani a gravadora Capitol do México, mas ele não agüentou a saudade e logo voltou para cá, para organizar uma reestruturação da Philips que em breve iria se tornar a Phonogram, depois Polygram, com a chegada de outros artistas. Depois que enxugou o elenco, ele ficou com um time de primeira, com artistas como Elis, Gil, Jorge Ben, Chico, Caetano, Gal Costa, Maria Bethânia, Vinicius de Moraes, Toquinho, entre muitos outros.
Em um festival, André assistiu ao discurso inflamado de Caetano contra a juventude reacionária que vaiava a apresentação de ?É Proibido Proibir?. Ele não perdeu tempo, e mandou prensar o discurso como o lado B do compacto que havia sido gravado dias antes. Sempre contestador, André apostou no seu instinto para descobrir e lapidar talentos que as vezes podiam até não atingir o sucesso esperado no lançamento, mas que continuam vendendo até hoje.
Só que tempos sombrios estavam chegando, e a ditadura e a censura se tornaram uma realidade. Como disse Pena Schmitt em seu blog, o André Midani é um cara destemido. Ele assumiu a missão de contratar Chico Buarque por ter a consciência de que ele tinha que gravar e lançar seus discos, porque a mensagem das letras de Chico eram simplesmente essenciais para aqueles tempos. André enfrentou a ditadura para lançar os discos de seus artistas contestadores que eram o oxigênio da sociedade pensante no Brasil do final dos anos 60 e início dos anos 70. Ele viajou a Roma para gravar com Chico Buarque no exílio, e também gravou discos de Gilberto Gil e Caetano Veloso enquanto eles estavam em Londres. Ele tinha um enorme talento para administrar artistas polêmicos, mas geniais, como Raul Seixas e Tim Maia, por exemplo.
No meio da década, enquanto Rivelino dava o drible elástico no Maracanã, André criou a gravadora Warner no Brasil, atendendo ao pedido de Nesuhi Ertegun. Foi lá que no começo dos anos 80, ele lançou a nova geração do Rock brazuca, com figuras como Titãs, Ultraje a Rigor e Barão Vermelho, entre muitos outros, ou seja, eu tenho que agradecer ao André pela trilha sonora da minha adolescência!
Sua vida o levou por muitos outros caminhos, como ser diretor da mega corporação Time Warner, morando em Nova York, se tornar o negociador do seqüestro, tentando salvar o seu amigo Washington Olivetto do cativeiro, lançar a carreira do astro da música latina Luis Miguel, e ainda ser o organizador do evento ?Ano Brasileiro na França? em 2005, atendendo a um pedido do seu amigo o então Ministro da Cultura Gilberto Gil.
Eu já falei demais, e se você quiser saber mais, só lendo o livro! Para completar a minha semana musical depois de ler o livro do André Midani, ontem a noite eu tive o privilégio de assistir a uma sensacional apresentação do mestre João Donato no lançamento de um evento da Brastemp, ?o Lado B da Bossa Nova?.
Eu recebi este livro em uma cortesia da editora Nova Fronteira, da minha amiga Miss Moura e do meu amigo Cardoso. Não deixe de ler o texto dele no Contraditorium sobre o livro de Midani, e de visitar o site do próprio André Midani!


