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Alexandre Inagaki

Obrigado, Glock!

03/11 - 12:00

Com uma decisão arriscada mas completamente feliz, Timo Glock nos deu uma final emocionante de campeonato.

Se não fosse pela decisão arriscada de não parar para trocar pneus no final da corrida, Timo Glock não teria ficado à frente de Vettel e Hamilton nas últimas voltas do Grande Prêmio do Brasil, e o mais emocionante fim de campeonato de todos os tempos não teria tido a mesma montanha-russa de emoções em Interlagos. É por isso que, contrariando a avassaladora maioria de torcedores passionais, eu agradeço a Timo Glock e à equipe Toyota por ter injetado uma dose cavalar de adrenalina a um roteiro que estava 90% pronto antes mesmo da corrida: com Lewis Hamilton campeão da temporada, graças aos 7 pontos de vantagem que havia aberto de Felipe Massa, o grande vencedor do GP Brasil de Fórmula 1 de 2008.

Embora torcedores brasileiros tenham o hábito de alimentar seus Foxs Mulders interiores e fomentarem teorias da conspiração contra nossos esportistas, não custa nada lembrar que, se o carro de Timo Glock tivesse seguido exatamente a mesma estratégia de todas as outras equipes, ele jamais teria ficado à frente da McLaren de Hamilton (recordando ainda que Jarno Trulli, companheiro de Glock na Toyota, também não parou nos boxes para colocar pneus de chuva). A Toyota decidiu arriscar, e graças à sua estratégia diferenciada quase impediu o título do namorado da Pussycat Doll. Quem viu o estado dos pneus de Timo ao final da corrida atestou: era quase impossível manter um bólido em pista molhada do jeito que eles estavam.

E assim, do mesmo modo que atores coadjuvantes como Kevin Spacey em “Os Suspeitos”, Rupert Everett em “O Casamento de Minha Melhor Amiga” ou Javier Bardem em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, esta foi uma corrida na qual os protagonistas foram ofuscados por personagens secundários na trama: Timo Glock e também Sebastian Vettel, que em uma brilhante corrida não deu tréguas para Felipe Massa quando estava em segundo lugar na prova, a poucos segundos do brasileiro, e tampouco para Hamilton, que após ter sido ultrapassado por este alemão da equipe Toro Rosso por pouco não vê pelo segundo ano consecutivo o troféu de campeão escapulir de suas mãos.

Foi o mais emocionante final de temporada dos últimos tempos, bastante adequado para aquele que foi o mais disputado campeonato de Fórmula 1 dos últimos anos, com nada menos que 7 pilotos diferentes vencendo corridas (Massa, Hamilton, Vettel, Fernando Alonso, Kimi Raikkonen, Robert Kubica e Heikki Kovalainen). Eu só não afirmo peremptoriamente, feito 99% dos jornalistas e torcedores, que se tratou do mais emocionante final de todos os tempos porque lembro, por exemplo, que em 1964 o escocês Jim Clark perdeu o título também na última volta, quando o motor de sua Lotus quebrou, e John Surtees, favorecido pelo seu companheiro de equipe Ferrari, o italiano Lorenzo Bandini cedeu sua posição - tal qual um Rubens Barrichello daquela época - para que o inglês Surtees pudesse chegar na colocação necessária para se tornar campeão do mundo. Mas é claro que, por um dos protagonistas da corrida de ontem ter sido brasileiro, as duas últimas voltas foram excepcionalmente emocionantes para o torcedor aqui, que berrou, levantou do sofá, vibrou com a ultrapassagem de Vettel em Hamilton para, nos últimos instantes, ter sido golpeado com o gol que Lewis fez aos 46 minutos do segundo tempo ao passar a Toyota de Glock e ter conseguido o mínimo necessário para se consagrar, aos 23 anos,  9 meses e 26 dias de idade, o mais jovem campeão de Fórmula 1 da história.

Por fim, não posso deixar de elogiar a postura de Felipe Massa, que nesta temporada de 2008 mostrou uma assombrosa evolução como piloto, soube reconhecer os méritos de Lewis Hamilton e honrou o legado de uma nação que já teve campeões do naipe de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna. Sua vitória no Grande Prêmio do Brasil foi maiúscula e soberana, e sua atitude no pódio de Interlagos, de choro contido mas orgulho no peito, foi a de um verdadeiro ídolo. Podemos lamentar aqui seu péssimo começo de campeonato, o malfadado pirulito eletrônico que lhe prejudicou a corrida em Cingapura ou a quebra do motor da Ferrari a três voltas da bandeirada final na Hungria, mas enfim, de nada adianta lamentar pela vida inteira que poderia ter sido e que não foi, parafraseando Manuel Bandeira.