Títulos de filmes na vida real
Por mais esforço que se faça, às vezes os títulos escolhidos para as versões nacionais de filmes são incompreensíveis.
“Dan in Real Life” é uma comédia romântica que me surpreendeu positivamente. O título original do filme remete ao nome da coluna de jornal escrita pelo protagonista do filme, Dan (Steve Carell), na qual ele dá conselhos familiares aos seus leitores. Porém, na vida pessoal, é um viúvo com dificuldades em se relacionar bem com as três filhas. Ao viajar para passar férias com toda a sua família, conhece uma mulher fascinante, Marie (Juliette Binoche), a primeira a despertar seu interesse depois de muito tempo. Há um contratempo, porém, que ele só descobre após ter se apaixonado: ela é a nova namorada do seu irmão.
Seguindo os cânones clássicos de toda comédia romântica, os protagonistas do romance passarão por diversos contratempos antes que possam, enfim, chegar a um final feliz. Creio que a grande qualidade deste filme, dirigido por Peter Hedges, está na habilidade com que articula clichês e, principalmente, aproveita a boa química entre os protagonistas: um Steve Carell contido, mais para “Pequena Miss Sunshine” do que para “O Virgem de 40 Anos”, e uma Juliette Binoche cativante como de habitual, personificando à perfeição o papel da mulher com quem você caminharia radiante pelas ruas, de mãos dadas balançando, louco para apresentar aos amigos só para que eles fiquem salivando de inveja.
O grande problema de “Dan in Real Life”, na verdade, é o título infeliz que ele recebeu no Brasil: “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”. Um nome tão bobo que quase me fez deixar de ver o filme, em especial após ter visto a propaganda na TV que sequer citava o nome de Binoche, Oscar de Atriz Coadjuvante por “O Paciente Inglês”, ressaltando apenas a presença de Steve Carell. Para mim, um caso claro de se acionar o Procon: não duvido que muitos incautos tenham ido aos cinemas esperando ver uma comédia comercial, ao estilo de “A Volta do Todo Poderoso” ou “Agente 86″, e se deparou com um filme romântico-familiar. Enquanto isso, assisti a “Dan in Real Life” quase ao acaso, porque era um dos dois filmes que eu poderia ver no horário em que me encontrava no shopping (a outra opção, bleargh, era “High School Musical 3″) e porque eu imaginava que um filme com Juliette Binoche não poderia ser de todo ruim. Na mosca: “Dan in Real Life” é uma daqueles produções sem grandes aspirações a não ser a de contar uma boa história. Com a preciosa ajuda de atores coadjuvantes como Dane Cook, Dianne West e Emily Blunt, conquistaria seu merecido público sem precisar enganar os cinéfilos-consumidores com seu título infeliz para o mercado brasileiro; o nome que ganhou em Portugal, “O Amor e a Vida Real”, é bem mais fiel ao espírito do filme.
E com isso, “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” junta-se ao rol de títulos brasileiros que nitidamente prejudicam a fruição de filmes por causa de nomes de teor apelativo dados por suas distribuidoras. Cito, por exemplo, o bom suspense “Whispers in the Dark”, que possui em seu elenco atores do porte de Alan Alda, John Leguizamo e Annabella Sciorra, e que apesar da história intrigante e cheia de reviravoltas, era visto com outros olhos por causa do seu título no Brasil: “Gemidos de Prazer”. Convenhamos: com um nome desses, o que esperar? Não estranharia se visse este suspense na mesma prateleira de uma locadora ao lado dos DVDs de “Fiz Pornô e Continuo Virgem”, “Um Jegue na Minha Cama” ou “Edward Mãos-de-Pênis”. É o mesmo caso de “Killing Me Softly”, suspense estrelado por Heather Graham e Joseph Fiennes, cujo nome foi pego emprestado da música homônima de Roberta Flack, e que também ganhou um título (in)digno de cine privê: “Matando-me de Prazer”.
Podia ser pior? Como nos ensina a implacável Lei de Murphy, não há nada que esteja ruim que não possa ser piorado. Vide o crime cometido com “State and Main”, longa dirigido pelo dramaturgo David Mamet. Ok, eu entendo que o título original não é dos mais atrativos (”State” e “Main” são os nomes de duas ruas que se cruzam na cidade na qual se passa a trama, que narra os bastidores de uma filmagem numa cidade pequena dos EUA), mas um filme cujos protagonistas são Alec Baldwin, Sarah Jessica Parker, William Macy e Philip Seymour Hoffman, e que claramente não se trata de uma dessas comédias abiloladas para adolescentes, merecia receber o nome de “Deu a Louca nos Astros”? É de se imaginar que se esse título foi escolhido após uma acirrada disputa com opções como “Loucademia de Atores” e “Uma Comédia Muito, Muito Doida”.
Em tempo: para mim, não há exemplo mais significativo das bizarrices que cercam a tradução de títulos de filmes do que “Lost in Translation”, o longa que deu a Sophia Coppola o Oscar de Roteiro Original, estrelado por Bill Murray e Scarlet Johansson. No Brasil, o filme ganhou o título de “Encontros e Desencontros”. Em Portugal, tornou-se “O Amor é um Lugar Estranho”. E nós, enquanto isso, ficamos perdidos em meio a essas traduções traidoras…


