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Edney Souza

O dilema entre dizer e fazer

20/11 - 23:28

Graças a internet você pode falar o que quiser pra todo mundo ouvir, mas será que alguém está interessado no que você tem a dizer?

Brigas de ego me cansam de forma absurda. Dizem que ego é um pequeno argentino que todos carregamos dentro de nós, apesar da população da Argentina ser apenas de 39 milhões, creio que existem muitos mais “hermanos” expatriados ao redor do mundo.

A competição entre os humanos provavelmente aconteceu junto com seu surgimento no Holoceno do período Quartenário da era Cenozóica, depois de voltar de uma caçada ninguém tinha tempo de ficar medindo os bichos devido a fome do grupo, mas durante a malemolência da digestão ficavam discutindo quem tinha caçado o maior bicho com base no tamanho dos ossos que sobravam.

Até que surgiu a figura do pescador, como os peixes variam muito de tamanho (um salmão real pode variar de 4,5 a 22 kg podendo chegar a 59kg) e o que sobram são apenas as espinhas, fica difícil medir alguma coisa. Sendo assim a capacidade de contar histórias passou a ocupar o centro das disputas de ego desde então, quem falasse de forma mais convincente ocupava lugares de destaque na sociedade.

Constantemente sou surpreendido por pessoas que me recomendam outras, cujas idéias são fantásticas. Quando pergunto o que elas fizeram de prático quase sou atacado a pedradas: “E você acha que ter escrito esse texto já não é fantástico o suficiente?” Não, não acho, desculpe mas não acho. Pesquisadores escrevem textos fantásticos e sabem o que eles tem de fazer para provar que aquilo não é um amontodado de balelas? Uma pesquisa! É por isso que são chamados pesquisadores!

Escrever uma notícia não é algo fantástico, exceto se você for uma testemunha ocular, nesse caso escrever apenas a notícia é um grande desperdício, me interessa muito mais saber o que você sentiu lá, qual foi a sua percepção dos acontecimentos, me interessa o que você fez lá, o que você viu é interessante para ilustrar o seu feito, é apenas uma parte do que você fez.

Existem diários incríveis que adoro ler, simplesmente porque sei que a pessoa fez aquilo ali, viveu aquilo, sentiu aquilo. Acho que precisamos desses momentos egotrips dos outros para estimular nossa própria egotrip, ou talvez porque a maioria do que vemos via jornalismo tradicional soe tão plastificado que tenha perdido a graça.

Isso me lembra os shows de calouros ou programas dominicais onde uma atração faz alguma coisa “surpeendente” no palco e depois é entrevistada para explicar o que sentiu, como aprendeu aquilo, como descobriu que era capaz de tal proeza, etc. Muita gente não entende porque existem tantos apaixonados por esses programas, é uma fonte inesgotável de egotrip, constantemente alimentando nas pessoas a ilusão de que conseguirão aprender algo fantástico a qualquer momento.

Ler e assistir tudo isso sempre ensina muita coisa, mas eu gosto de separar o aprendizado em duas partes, aquilo que eu descobri que é possível ser feito e aquilo que eu aprendi a fazer com minhas próprias mãos (ou outras partes quaisquer do meu corpo).

Às vezes acho que a grande culpa do baixo desenvolvimento da sociedade brasileira é essa falta de estímulo ao fazer algo, nos Estados Unidos as crianças tem de fazer algo na feira de ciências, mocinhas tem de fazer algo no show de talentos para misses, e quem foi mal na feira de ciências e no concurso de beleza, tem de ser bom em algum esporte se quiser fazer a faculdade.

As oportunidades estão atreladas a sua capacidade de fazer algo, as oportunidades não precisam vir através de um sistema de cotas ou de um programa de bolsas que não pedem que você prove nada além de sua raça ou condição social.

A solução do dilema entre dizer e fazer é simples, você tem de fazer e contar pra todo mundo o que fez, de prerefência ensinando como se faz. Não tenha medo de te copiarem, se for muito fácil copiarem o que você faz é porque isso não é tão especial assim quanto você imagina. ;)