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Alexandre Inagaki

Pulando o Tubarão

24/11 - 14:57

Muitos são os exemplos que se pode pensar para explicar esta expressão criada nos EUA por dois universitários.
 
“Jump the shark” é uma expressão criada para denominar o começo do fim de uma série de TV. É o momento em que o telespectador percebe que ela atingiu seu pico, e, ao mesmo tempo, o início de sua decadência. É o instante em que um programa chega a um momento irreversível de sua existência. Exemplos? O beijo de David e Maddie em A Gata e o Rato. Kevin Arnold chegando à puberdade em Anos Incríveis. Boy George fazendo uma participação especial em Esquadrão Classe A. A revelação de quem matou Laura Palmer. Ross e Rachel se atracando em Friends. A primeira aparição da “Turma do Bacana” em Armação Ilimitada. A entrada de Pedro Paulo Rangel no elenco da TV Pirata.
 
O termo surgiu em uma conversa entre dois colegas de faculdade, Sean Connolly e Jon Hein, criador do site Jump the Shark, e origina-se de uma cena do clássico seriado Happy Days (citado pela banda Weezer no videoclipe da música “Buddy Holly”). Segundo análise dos dois amigos, Happy Days começou a decair a partir de um episódio no qual o personagem Fonzie aparece pulando em cima de alguns tubarões em um salto de esqui aquático. A cena foi tão ridícula que marcou, fulminantemente, o início do processo de derrocada do seriado. Veja para crer:

 
O site, de visita obrigatória a qualquer internauta interessado em cultura pop, possui um espaço aberto para a partipação dos telespectadores, que votam nos momentos em que suas séries prediletas começaram a subir no telhado, classificados por categorias como “Mesmo Personagem, Ator Diferente” (um exemplo clássico: a mudança do ator que interpretava o marido do seriado A Feiticeira), “Novo Garoto na Cidade” (feito Scooby-Loo, o sobrinho pentelho do Scooby-Doo) ou “Nascimento” (vide Pedrita e Bam-Bam, os filhos de Fred Flinstone e Barney Rubble que já eram chatos quando bebês e se tornaram mais insuportáveis ainda quando cresceram e viraram adolescentes em Flinstones, ou de Mabel, a filha de Paul e Jamie em Mad About You).
 
* * *
 
Outro dia peguei, pelo mais completo acaso a uma reprise de Arquivo X, seriado que em meados dos anos 90 cheguei a considerar uma das melhores séries de todos os tempos. Ah, o que o crivo do tempo que transforma vinhos em vinagres não faz… 
 
Quando Arquivo X surgiu, em 1993, o seriado causou sensação imediata. Seus roteiros abordavam temas que tangenciavam o ridículo: alienígenas, conspirações governamentais, monstros folclóricos. Contudo, trabalhavam tais assuntos com inteligência e criatividade. Insinuavam respostas sem mastigar explicações redutoras, incitavam a imaginação dos espectadores e, principalmente, traduziam de forma criativa o zeitgeist de uma época pós-utópica, marcada pela descrença generalizada nas instituições, e pela busca, no final do século, de respostas místicas a mistérios que as religiões já não nos respondiam satisfatoriamente. De quebra, os X-Files trouxeram um inovador casal de protagonistas: Fox Mulder e Dana Scully. Dois agentes do FBI que, ao decorrer dos anos, consolidaram um relacionamento baseado na extrema confiança que nutriam um pelo outro. Uma relação mantida à base da estrita amizade e nada mais do que isso, provando aos telespectadores que nem toda relação homem/mulher necessitava culminar em sexo.
 
Infelizmente, os produtores do seriado não souberam a hora de parar. A galinha dos ovos de ouro foi artificialmente mantida viva até que expelisse seu último e melancólico traque dourado. Nove anos depois, com os índices de audiência arrefecendo à medida que as virtudes iniciais descambavam para ao ridículo, a série finalmente chegou ao seu fim. De quebra, amarguei ver, no último episódio, um beijo apaixonado entre Mulder e Scully: a prova inconteste de que o mais interessante dos relacionamentos platônicos soçobrou à sanha dos clichês televisivos. Foi uma piscadela cúmplice ao grande público, mas também um golpe dispensável aos antigos fãs da série, que admiravam ver como os roteiristas de Arquivo X driblavam as convenções clássicas dos casais televisivos.
 
Depois de assistir ao capítulo final, assimilei definitivamente a lição: não confie em ninguém, muito menos em produtores de Hollywood. 

Mas, muito antes do beijo apaixonado entre Mulder e Scully, Arquivo X já havia “pulado o tubarão”. O começo do fim veio com a produção de um ridículo filme para o cinema, em 1998, no intervalo entre a quinta e a sexta temporada. Com o longa-metragem, vieram revelações “bombásticas” e respostas artificiais e pouco convincentes aos mistérios propostos pelos roteiristas nos primeiros anos da série. Daí para frente, o processo de decadência foi inevitável - é o mal de se banalizar os enigmas. Citando as sábias palavras de Federico Garcia Lorca: “só o mistério nos faz viver”.

* * *
 
A expressão é tão boa que transcende os limites televisivos para ser utilizada em outras áreas. Cinema, por exemplo: A Lista de Schindler, o filme de Spielberg, resvala na categoria de obra-prima até a cena em que Oskar Schindler, ao se despedir dos judeus de sua fábrica, começa a chorar copiosamente dizendo: “mas se eu tivesse vendido este anel, teria salvo mais cinco judeus”, e blá blá blá. A partir desta seqüência desnecessariamente explicativa, você já sabe: o filme pulou o tubarão.
 
Esportes: Ronaldo Fenômeno pulou um baita dum tubarão na fatífica final da Copa da França de 1998. Mas, caso raro, conseguiu nadar contra a corrente e dar a volta por cima com a ajuda valiosa da Família Felipão na campanha do pentacampeonato de 2002. Porém, é também a prova de que, após o auge, não há outra alternativa senão descer ladeira abaixo. Contusões, episódios envolvendo travestis, casamentos desastrados, baladas pós-jogos e o péssimo desempenho da Seleção na Copa de 2006 parecem ter feito com que Ronalducho tenha pulado definitivamente seu tubarão.
 
Música: para mim, o Pink Floyd pulou o tubarão quando Syd Barrett não voltou de sua viagem de LSD, embora a maioria dos fãs pense que o tubarão só foi transposto com a saída de Roger Waters da banda. Quanto aos Beatles, quantos hão de discordar que o encontro de John Lennon com Yoko Ono foi o esqui aquático dos Fab Four?

Internet: andam dizendo que a blogosfera morreu. Será mesmo? Será que os blogs pularam o tubarão quando foram cooptados pelo mainstream? Quando começaram a fazer os tão polêmicos posts pagos? Quando surgiu o Twitter? Respostas devem ser enviadas para a redação. ;)
 
Por fim, vida pessoal. Você descobre que seu relacionamento pulou o tubarão a partir do momento em que sua parceira o chama para conversar, dizendo aquela tenebrosa frase:
 
- Precisamos discutir nossa relação.
 
Não se esqueça de levar bóias e colete salva-vidas.
P.S. 1: Esta é uma versão remixada e remasterizada de um texto originalmente publicado no e-zine Spam Zine em 05/09/2002 (http://spamzine.sites.uol.com.br/edicoesanteriores/sz077.htm).

P.S. 2: Hector Lima, do blog Goma de Mascar, também escreveu sobre o assunto.