Nós e nossas pequenas sinas…
Por que sofrer é mais do que sentir dor de dente ou fome.
Numa noite perdida do ano 2000, minha mãe abriu a porta do meu quarto de repente, como ela sempre fazia para me acordar. Só que ainda não era hora de ir para a escola, então eu fiquei sem entender nada.
Ela abriu a porta, eu acordei de repente e ela sentou na cama, me perguntando logo: “meu filho, por que você decidiu não fazer crisma?”. Era ano do tal sacramento que confirma a crença dos católicos em seu deus. E por diversos motivos que não interessam aqui, eu havia decidido/chegado à conclusão/descoberto que não acreditava no Deus católico ou em qualquer outro. Minha mãe se assustou logo com aquilo tudo, com a minha independência de deixar a crisma lá no canto dela [embora tenha sido batizado e participado da 1ª Eucaristia] e com o anúncio do meu ateísmo, fato que ela ignoraria nos anos seguintes, de convites constantes para a missa de domingo e afins. Ela, vinda de uma tradicionalíssima criação católica, não entendia como uma pessoa poderia enfrentar o mundo sem o apoio de um deus.
Mas esse não é um texto que fala de religião. Não mesmo.
Como disse no minúsculo e ainda assim prolixo abre desta coluna, sofrer é mais do que sentir dor de dente. Dentro das mazelas humanas notáveis, o sofrimento injustificado é o maior responsável pela auto-enganação e indolência tão frequentes em qualquer papinho de msn ou gtalk. E entenda por mazela humana notável aquela que se força a ser vista e carinhada, como criança carente.
Junto ao sofrimento injustificado existe a colossal e absurda dor do ego, o órgão mais sensível a estímulos do corpo humano. E assim nos deparamos com manifestações maniqueístas e limitadas, com uma absurda falta de noção coletiva e com um vespeiro difícil de acalmar.
E antes que algo se fale a respeito disso, tenho mais dedos meus apontados para mim mesmo que para outras pessoas.
O umbiguismo e a histeria que se vê hoje em qualquer espaço online [generalizo sem medo de ser feliz] poderiam ser guardados e resolvidos por cada indivíduo por sua conta e risco. Quem sabe um terapeuta ou um analista para acompanhar o processo. Talvez até um amigo, se você tiver sorte de contar com um. Ou ainda um deus que esteja atento aos seus reclames. Mas o mundo - aparentemente - não tem nada a ver com isso.
Só é preciso deixar claro uma única e importantíssima coisa: reclamar não vai te levar a lugar nenhum e ninguém te chamou pra participar da brincadeira. Então, se veio para o playground, aguenta o tranco.
É o que eu repito para mim todos os dias.


