A educação posta de lado
Sábado passado eu estive na cerimônia de inauguração de um projeto educacional, bancado por iniciativa privada, e capitaneado pela empresa de um amigo a quem admiro muito. São raras as empresas que chegam à terceira geração com fôlego suficiente para não apenas para crescer, como a dele, mas também para gastar dinheiro e recursos fazendo algo que o Governo tem a obrigação constitucional de fazer.
O dinheiro, repito, que saiu do bolso desta empresa e suas parceiras, foi aplicado na construção de um pequeno complexo esportivo, e nas instalações que podem atender gratuitamente até 800 alunos em curso de 18 meses que visa dar-lhes a capacitação necessária para entrar no mercado de trabalho, aprimorando matérias básicas que deveriam ser bem amparadas pela escola pública, mas não são, e fazendo extensão em algumas áreas já profissionalizantes.
Mas eu saí da inauguração meio ressabiado, não pelo projeto, não pelo instituto ? que já disse louvo ? , mas pelas palavras do Ministro Interino do Trabalho, André Figueiredo.
Em seu discurso, o Ministro Interino fez uma grande misturada, e começou por falar na obrigatoriedade que as empresas com mais de cem funcionários têm de ter em seus quadros um percentual X de deficientes físicos, coisa que considero certíssimo e muitíssimo útil para combater preconceitos, mas ele infelizmente ligou esta obrigação advinda da responsabilidade social a uma suposta obrigação que as empresas têm com a educação, mesmo a mais básica.
Por mais que eu tenha liberdade de escrever aqui o que quiser, guardo para mim as palavras nada educadas que me vêm à cabeça. É justamente por conta desta linha de pensamento, onde, em vez de se assumir que algo é uma falha miserável, que a educação pública é precária e ineficiente, de assumir que aqueles que vêm do ensino público e triunfam o fazem por mérito próprio e um esforço tremendo, a preocupação é sempre dizer que ‘não é nossa culpa’.
Mas é. A Constituição Federal diz, em seu artigo 205 que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho“. Ou seja, à sociedade cabe colaborar incentivando e promovendo, ao Estado cabe o DEVER de prover.
A educação básica pública e gratuita é o começo de tudo, é o ensinar a pescar da passagem bíblica, é ela que dará ao indivíduo a chance de competir com um mínimo de igualdade de condições em seu futuro, só através da educação básica acessível a TODOS os brasileiros, é que vamos ter a condição de combater os outros males. Uma população mais educada tende a cuidar mais de sua saúde, uma população mais educada tem mais acesso a oportunidades e maior capacidade de racionalizar seus atos, coisas que conjugadas, tendem a afastar o indivíduo de práticas criminosas, diminuindo por conseqüência a violência (até a doméstica). Ou seja, melhorando os outros dois setores em que o governo falha, também miseravelmente: saúde e segurança pública.
Infelizmente, o trabalho no desenvolvimento de uma educação básica de respeito, é muito parecido com obras de saneamento básico, ficam sob o solo, seus efeitos só serão sentidos em longo prazo, e não criam palanque para desfile de bravatas políticas… Triste.


