A notícia que sufoca
Há um sem número de possibilidades para interpretar um livro como o “Ensaio sobre a Cegueira”, do escrito português José Saramago. Uma plausível é que a tal cegueira branca, que vai atacando as pessoas sem discriminação, é reflexo da dormência destas em relação ao mundo. Daí a cegueira.
Na revista Bravo! deste mês, há um artigo na sessão de Artes Plásticas bem interessante, que trata sobre como as habitantes dos grandes centros, apressados, concentrados e absurdamente acelerados, simplesmente deixam de perceber a cidade ao seu redor [mais informações aqui].
Essas cegueiras e dormências, quando transportadas para a pauta jornalística, servem de analogia: as pessoas devem ficar insensíveis aos conteúdos bombardeados insistentemente. A quantidade de informações sobre os mesmos assuntos, elencados pelo agenda setting [mais informações aqui], deve provocar um enfado sem tamanho no espectador comum.
Vejamos alguns exemplos…
Há cinco meses, não havia noticiário online, escrito, falado ou televisionado que não trouxesse a última reviravolta do caso da menina Isabella Nardoni. A avalanche de plantões, últimas notícias e informes a respeito do caso evoluiu até o assunto ir morrendo aos poucos, e após o pedido de habeas corpus da defesa do casal ter sido negado pelo STF, o furor do assunto passou. Hoje, algumas atualizações a respeito do caso ainda ganham notoriedade, mas em menor proporção.
Logo em seguida, veio a aprovação da nova Lei 11.705, apelidada de “Lei Seca”, que alterou o Código de Trânsito Brasileiro e diminuiu o teor alcoólico máximo permitido no sangue do motorista para quase zero. O burburinho que tal decisão provocou fez com que o assunto ficasse em voga por várias semanas, com matérias, artigos e manifestos apresentando a redução dos índices de acidentes de trânsito, o menor movimento nos bares, os prejuízos, as soluções encontradas por clientes e donos de bares e restaurantes para os limites da lei…
Isso tudo, no entanto, só durou apenas até o início dos Jogos Olímpicos de Pequim, responsáveis por mais uma vez mudar o foco da pauta jornalística.
Evento importante, que nesta edição calha por ser recebido por um país imerso num duro regime autoritário e de cultura e costumes distantes dos nossos, os Jogos Olímpicos estão na boca e nas letras dos noticiários. 204 países, 28 esportes, quadro de medalhas, repescagens, bronzes, pratas, ouros, recordes. E nos meios jornalísticos, um reflexo do tamanho do evento e da sua importância.
Não sou bobo de ignorar a influência do agenda setting dentro desse processo de seleção de notícias. E também não digo que há um erro absurdo nisso tudo. O que me provoca é a forma como os assuntos são alçados a uma exposição intensa para depois caírem num esquecimento quase absoluto. Junto a todos esses exemplos, outras pautas continuaram a ter seu espaço. Isso é óbvio e até natural.
O que coloco é a impressão de uma progressiva falta de equilíbrio na cobertura jornalística. Há tanta exposição para as mesmas notícias que não seria de se espantar se de repente nos tornássemos “cegos e dormentes” a tudo isso. Se simplesmente não ligássemos mais para o assunto da vez. É sufocante.
E aí eu lembro dos versos de Caetano na canção “Alegria Alegria”: “o sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça… quem lê tanta notícia?”
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Vale lembrar que, em breve, a mídia nacional deve retomar naturalmente a Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no Brasil. Alguma idéia do que deve acontecer daqui pra frente?


