Sobre humanos e animais
À medida que os homens mostram sua verdadeira face, os animais parecem ser os verdadeiros civilizados.
“Expresso Para o Inferno” é um filme de 1985 que foi dirigido por Andrei Konchalovsky, com roteiro escrito a partir de uma história original de Akira Kurosawa. No diálogo mais marcante do filme, uma mulher se dirige a um presidiário em fuga dizendo:
- Você é um animal!
O presidiário, interpretado por Jon Voight, dirige-se a ela serenamente, respondendo:
- Não. Pior… Sou um humano!
Essas falas vieram à minha mente em dois momentos distintos na semana passada. O primeiro foi quando soube de uma tragédia ecológica causada pela empresa Servatis, responsável pelo vazamento de pelo menos 1.500 litros do pesticida Endosulfan no Rio Paraíba do Sul, no interior do Rio de Janeiro, no dia 19 de novembro, que provocou a morte de milhares de peixes e animais da região como capivaras e tartarugas. E o segundo momento foi quando assisti ao vídeo abaixo.
O vídeo mostra um homem sendo atropelado na tarde do dia 30 de maio de 2008. O departamento da polícia da cidade de Harford, no estado de Connecticut, divulgou as imagens em seu site com o objetivo de coletar informações que pudessem ajudar a identificar quem foi o motorista responsável por atropelar um homem e fugir sem prestar socorro. Mas, tão perturbador quanto o incidente original foi assistir à reação das pessoas que, na calçada, viram Angel Arce Torres, um senhor de 78 anos de idade, agonizar estatelado no asfalto. Elas simplesmente ficaram paradas, olhando um homem ferido como se estivessem vendo peixes em um aquário. Durante os intermináveis 84 segundos de duração do vídeo, nove carros passaram pelo corpo de Torres sem parar para socorrê-lo, enquanto diversos curiosos ficaram olhando para aquele homem estirado no meio da rua.
Angel Arce Torres, pai de sete filhos, está internado no hospital de Hartford desde o dia em que foi atropelado. Torres perdeu os movimentos do pescoço para baixo, e permanece em estado grave. O motorista que o atropelou até hoje permanece sem identificação, porque ninguém anotou a placa do veículo, do mesmo modo que nenhum dos transeuntes que testemunharam a cena se dignou a fazer mais do que simplesmente ficar olhando aquele homem caído no asfalto. A divulgação do vídeo causou comoção e perplexidade na sociedade americana, tornando-se mais um terrível exemplo de “bystander effect” (”efeito espectador”), fenômeno psicológico no qual indivíduos mostram-se menos propensos a ajudar outras pessoas em situações emergenciais quando sabem que há outros presentes no mesmo local.
O caso mais notório de “bystander effect” foi o assassinato, em 1964, de Kitty Genovese, que foi esfaqueada no beco de um subúrbio em Nova Iorque. Seus gritos chamaram a atenção de um vizinho, que gritou e afugentou o assassino, mas não por muito tempo. Ferida e atordoada, Kitty ainda conseguiu arrastar-se até o seu apartamento. O homem que a atacou aguardou, sistematicamente, dez minutos, a fim de checar se a polícia ou a vizinhança viria ao socorro daquela mulher. Como ninguém apareceu, o assassino seguiu os rastros de sangue no chão, reencontrou a sua vítima deitada no chão do seu apartamento e finalizou o seu crime: atacou-a sexualmente, desferiu mais algumas facadas, levou 49 dólares de sua bolsa e foi embora. Passou-se cerca de meia hora, e ninguém na vizinhança ajudou Kitty Genovese. Apenas alguns minutos após o covarde ataque final, alguém chamou a polícia. Tarde demais. O assassinato de Kitty Genovese tornou-se símbolo da apatia social, e inspirou o quadrinista Alan Moore a escrever um dos episódios-chave da trama de sua graphic novel “Watchmen”.
Em contraponto ao atropelamento até hoje impune de Angel Torres, lembro de um outro vídeo.
As imagens, flagradas pelas câmeras de segurança da autopista Costanera Norte, em Santiago, Chile, mostram um cachorro vira-lata tentando salvar outro cachorro que acabara de ser atropelado. Sem ligar para carros e caminhões que passavam perigosamente ao seu lado, esse vira-lata conseguiu arrastar o outro cachorro ferido para o acostamento. Soube-se, posteriormente, que o cão atropelado não resistiu aos ferimentos e morreu. É desconhecido o paradeiro do cachorro que arriscou sua vida para tentar salvar outro animal. Nesse momento, sou obrigado a lembrar do diálogo de Kurosawa e questionar: o que é ser humano? O que é ser animal?


