A saga da Campus Party 2009
Os leitores dos meus blogs devem ter sentido a minha falta na semana passada. Mas foi por uma ótima causa, afinal eu estive na Campus Party 2009, um evento que reuniu geeks de todas as partes do Brasil, um verdadeiro paraíso para alguém que vive e respira tecnologia como eu.
Eu sempre disse que uma das melhores coisas deste tipo de evento é encontrar com os amigos, sejam eles virtuais ou não, mas é inegável que as atrações da Campus Party 2009 foram simplesmente sensacionais, como as várias possibilidades de aprender algo em todas as áreas do evento, conferir pela primeira vez ao vivo as TVs 3D da Philips, ver uma partida de futebol disputada por robôs LEGO Mindstorms, disputar uma partida de Laser Tag, lutar Kick Ass Kung-Fu e muito, muito mais.
Voltando as apresentações e debates, e sem contar as ótimas palestras do Campus Blog nas quais eu falei na coluna da semana passada e que foram tudo o que eu estava esperando, também não posso deixar de citar duas que foram muito especiais para mim. Em primeiro lugar, a apresentação do mestre Tim Berners-Lee, o homem que inventou a World Wide Web, e foi o responsável direto por criar as ferramentas com as quais tenho garantido o meu sustento nos últimos 15 anos, pelo menos. Não dá para resumir em palavras minha gratidão por alguém tão genial que ainda por cima fez tudo sem fins lucrativos, visando tão somente o progresso da humanidade. Palmas para Sir Tim são muito pouco, este homem merece ser reverenciado por onde pisar.
Entre outros assuntos, Tim Berners-Lee falou sobre a liberdade da informação no mundo online, e como cada pessoa precisa ter consciência e responsabilidade sobre cada conteúdo que publica na web. Sua palestra deixou a todos os presentes uma sensação de muita admiração e respeito. Estar no mesmo ambiente que Tim é inspirador e fascinante, e ouvir suas palavras foi algo muito marcante para mim.
Outra apresentação que me deixou impressionado foi a de Hugh McLeod, o cartunista do Gapingvoid, que falou sobre como a Internet mudou completamente o mundo do marketing e sobre a força das comunidades sociais e a importância das relações entre as pessoas. Na sua palestra, Hugh contou um pouco sobre sua experiência profissional, quanto trabalhava na Leo Burnett mas tinha a sensação de estar dedicando sua vida a uma profissão na qual todas as suas boas idéias eram descartadas pelos clientes e pelos seus chefes.
Então McLeod começou a rabiscar seus desenhos no verso de cartões de visita, sem qualquer intenção de ganhar dinheiro ou notoriedade com isto, mas simplesmente porque era algo que ele gostava e que lhe dava muito prazer. Outra razão era que aquilo era algo que lhe pertencia, e que ninguém poderia falar para ele fazer de uma maneira diferente.
Um tempo depois disto, Hugh criou um blog para mostrar seus desenhos para o mundo, e em pouco tempo já era conhecido pelo mundo inteiro. A Internet mudou o marketing de produtos de forma radical, mas mesmo antes disto, sempre tivemos a necessidade de compartilhar nossas experiências, levando nossos amigos a uma loja de música para tentar convencê-los de que uma música da qual gostamos é boa, por exemplo.
Hugh também contou alguns de seus cases de sucesso, como a vinícola que tinha um bom produto com um bom preço, e que teve um crescimento absurdo no faturamento depois que ele enviou algumas garrafas de vinho de presente para seus amigos blogueiros experimentarem e comentarem com seus leitores e amigos. Desta forma, uma simples garrafa foi transformada em um objeto social. Usando a inteligência, a arte do marketing na era da Internet pode transformar um simples produto em algo mais. Gestos sociais bem planejados podem converter seu produto em algo muito maior do que uma simples marca.
É claro que nada disto vai adiantar se o seu produto não tiver qualidade, portanto é preciso que você seja interessante, seja gentil com seus clientes e faça seu trabalho da melhor forma possível, assim você pode alcançar o sucesso enquanto faz a diferença. Segundo Hugh McLeod, o que importa são as pessoas, e não os objetos, e isto é tudo o que você precisa saber sobre mídias sociais.
Seria bom poder encerrar esta coluna por aqui, mas ainda existem alguns assuntos que merecem ser tratados. É muito triste saber que apesar de tantas experiências e interações, este incrível evento para muitos vai ser lembrado só por conta de algumas coisas lamentáveis que aconteceram, como a expulsão da banda Leme do palco principal por conta dos versos do rapper De Leve. Por mais que alguém não concordasse com suas letras, isto não se justifica.
É bom lembrar aqui que a organização do evento falhou e muito na questão de isolamento acústico de todas as áreas da Campus Party. Além dos problemas de áudio entre as diversas áreas, quando uma atração entrava no palco principal ofuscava a tudo e a todos com sua poluição sonora. Mas De Leve não tinha culpa de nada disto, e nunca deveria ter sido expulso do palco somente por cantar suas idéias, por mais não-ortodoxas que elas sejam.
Também adoraria parar de escrever sobre coisas desagradáveis, mas é que não dá para ignorar o desrespeito e agressão sofridas pela Ana Lúcia, que trabalhava em uma ação de marketing uma revista masculina e ficou mais conhecida na Campus Party como coelhinha ruiva, tratando a todo mundo com muita atenção e respeito para ser bolinada de forma covarde no penúltimo dia do evento.
O pior de tudo é que o cara que a atacou a Ana no sábado passado em uma total falta de respeito e humanidade, e que foi registrado por câmeras enquanto apertava com força a menina, é o mesmo sujeito que tirou fotos abraçado com ela e as outras modelos nos outros dias. Segundo sua própria confissão, ele fez isto por causa de uma aposta. Com todo o respeito a liberdade de expressão de cada um, eu discordo com vigor de quem julga a Ana ou a revista Playboy como culpados deste caso.
É que para mim a questão aqui não é a validade da ação promocional (que por acaso atingiu em cheio seu objetivo) e sim o direito que uma pessoa como ela tem de não ser atacada por um animal irracional, não importa que roupa esteja usando, ou deixe de usar. Este tipo de ataque truculento de alguém deveria ter alguma consequência, porque se a pessoa não consegue e nem quer controlar seus instintos mais básicos não pode conviver em sociedade.
Em minha defesa, e de todos os nerds e geeks da Campus Party, eu digo que ele não é um de nós. Um verdadeiro geek ou nerd não ataca mulheres contra a sua vontade, por isto este rapaz deve ser da tribo dos pitboys.
Falando de coisas mais amenas, durante a Campus Party tive a honra e o prazer de conhecer meu grande mestre o Gilberto Gil, em um encontro devidamente registrado em vídeo (mas não em foto) pelo Azaghal do Jovem Nerd e Nerdcast. Eu pedi a ele para mandar AQUELE abraço pros amigos do Jovem Nerd, e depois de mandar, ele perguntou, mas e para o Velho Nerd, não tem abraço? ;) Também pude trocar umas palavras com o lendário Mad Dog Hall!
De qualquer maneira, é muito bom saber que no ano que vem estarei presente em mais uma edição da Campus Party. Os erros de organização acontecem, aconteceram no ano passado e vão acontecer no ano que vem, por isto eu aplaudo de pé e peço bis de quem apóia um evento como este. E idiotas serão idiotas em qualquer canto, e não apenas em um dos maiores evento tecnológicos do planeta.
Nós cariocas inclusive já estamos começando a organizar um movimento para realizar uma das próximas Campus Party aqui no Rio de Janeiro, o que na minha opinião teria um enorme reflexo positivo nas escolas e nas empresas do nosso estado. Isto sem falar que, para quem vem de outros estados do Brasil, o Rio de Janeiro oferece muitas outras coisas além dos 10GB da conexão recorde da Campus Party!
Uma Campus Party faz muito bem para a alma de um geek de carteirinha como eu. Vida longa a Campus Party Brasil!


