Sobre “prêmios” e discussões em blogs
Faz parte da condição humana o desejo de obter reconhecimento pelas coisas que faz. Filhos querem tornar-se motivo de orgulho de seus pais, funcionários desejam receber elogios e aumentos de seus chefinhos, artistas vão a cerimônias de prêmios como Oscar, Grammy ou Emmy com seus discursos de agradecimento previamente preparados. Não seria, pois, diferente no universo dos blogs. E o fato é que o ego, esse bicho glutão que mora dentro dos cérebros humanos, constantemente pede por mais alimentos na forma de elogios, paparicos e mentiras sinceras, que interessam na medida diretamente proporcional ao grau de carência de cada um de nós.
Não surpreende, pois, o sucesso que certos “selos” ou “prêmios” fazem junto à blogosfera, alastrando-se feito fogo em palha seca. O mecanismo dessas premiações é simples: um blogueiro escreve um post anunciando que ganhou um selo qualquer (exemplo: o “Thinking Blogger Awards”), indica alguns nomes que ele julga merecedores de receber a mesma honraria, e estes são encarregados de repassar o selo adiante, linkando outros blogueiros que serão agraciados com o mesmo prêmio. Alguns chamam esse tipo de prática de “meme”; na prática, assemelham-se mais a correntes que são repassadas de mouse em mouse Web afora.

Um dos selos mais distribuídos nos últimos tempos é um certo “Prêmio Dardos”, cuja estampa cansei de encontrar em blogs dos mais variados assuntos, e cuja descrição afirma:
“Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras”.
Um generoso e nutritivo alimento para qualquer ego, sem dúvida nenhuma. Mas, além de ser agraciado com essas frases gentis, o blogueiro que porventura é condecorado com esse prêmio é compelido a seguir as seguintes regras:
“1. Aceitar exibir a distinta imagem.
2. Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.
3. Escolher quinze (15) blogs para entregar o ‘Prêmio Dardos’”.
Respeito quem se sente genuinamente feliz por ter sido lembrado por alguém e contemplado com esse selo, assim como não deixo de agradecer a todos aqueles que já me indicaram ao Prêmio Dardos, mas convenhamos: não é difícil constatar que, se todo premiado desatar a indicar outros colegas e camaradas, como num daqueles esquemas de pirâmide, em pouco tempo toda a blogosfera estampará essa comenda. Não pude deixar de me lembrar do blog Autocrítica, que foi criado em 2002 e já naquela época ironizava os prêmios que se multiplicavam pela Web, com as seguintes palavras: “Fala sério: você não está de saco cheio desses blogs que distribuem ‘awards’? Quem são estes caras que se julgam capazes de dizer o que tem qualidade e o que é ruim? O que eles oferecem para os blogs ‘premiados’? Quais os critérios de escolha?”
Mas, afinal de contas, quem foi o criador deste prêmio citado por centenas de blogs segundo a busca do Google e já difundido em diversos idiomas, como inglês, italiano, francês e alemão? Apesar de alguns afirmarem que a origem é brasileira, não foi tão difícil descobrir de onde surgiu o prêmio da vez. O pai da criança foi o escritor espanhol Alberto Zambade, que no dia 15 de fevereiro de 2008 publicou em seu blog Leyendas de “El Pequeño Dardo” um post intitulado “I Entrega de Premios Dardo 2008 ‘Best Blog Darts thinker’“. Está esclarecido, pois, o nome da premiação: “Dardo”, no singular, por causa do apelido de seu criador, que também foi o autor da ilustração original que estampa o selo mais visto em blogs nos últimos tempos.
Aparentemente, o prêmio chegou à blogosfera brasileira por meio da bitácora Resistencia Santiago de Leon de Caracas, que citou o publicitário Hélio Jenné, do blog Meu Blues Para Você, dentre suas quinze indicações feitas em 15 de junho de 2008. De lá para cá, o selo espalhou-se de tal maneira que chegou a inspirar Alcione Torres a publicar um post intitulado “Morte ao Prêmio Dardos!” no qual desabafa: “Devo confessar a vocês que já criei pavor ao Prêmio Dardos. Eu não sei quem foi que inventou esse absurdo da gente ter que mandar para 15 blogs! Já recebi várias vezes esse prêmio, mas, claro, não repassei todas as vezes. Por quê? Por que vou repassar para quem? Todo mundo já recebeu esse ‘presente de grego’”.
Conclusão? Desencane de quaisquer premiações. Se mesmo prêmios que teoricamente são menos anárquicos e mais estruturados, como o iBest e o Best Blogs Brazil, não escapam de contestações, polêmicas e reclamações, o que dizer de um selo que pode ser concedido por qualquer pessoa a qualquer momento? Reconhecimento bom é aquele que vem das pessoas que admiramos; não requer gifs animados nem montagens photoshopicamente toscas. Por último, mas não menos importante: blog é liberdade, e essa liberdade pode (e deve) ser exercida tanto pelo blogueiro quanto pelos seus leitores. É como bem escreveu Alex Castro: “Os blogueiros devem lembrar que ninguém é obrigado a ler blogs, que seus leitores podem sumir em um piscar de olhos e que ter leitores é um privilégio que se conquista a duras penas”. Em compensação: “O leitor de blogs tem direito a fazer o que bem quiser da sua navegação na internet, inclusive: ler ou ignorar blogs, fazer críticas por email, comentário ou post em outros blogs, até mesmo criar um outro blog pra falar mal do seu blogueiro desafeto”. Mas, como tudo na vida, procure não levar as coisas demasiadamente a sério. Afinal de contas, discussões na internet fazem tanto sentido quanto ver um cara exibir solos de air guitar para seus amigos imaginários.



