Uma vida dedicada aos Beatles
Como uma banda pode definir quem você é como pessoa? 
Tony era um garoto que cresceu em Liverpool junto com George Harrison, John Lennon e Paul McCartney. Um dia ele teve um encontro casual que mudou a sua vida. George estava indo para um show dos primeiros shows dos Beatles depois do sucesso em Hamburgo na Alemanha, e Tony pediu para carregar sua guitarra para entrar de graça no show.
Contratado pelo empresário dos Beatles Brian Epstein para ajudar no que fosse preciso, Tony passou a fazer tudo o que estava em seu alcance para que a banda fizesse o merecido sucesso o mais rápido possível, e seguiu com eles até o fim. Caso encontrassem os atores certos para interpretar os Fab Four, esta história daria um baita filme.
O livro Magical Mistery Tours - Minha Vida com os Beatles é um acontecimento mundial desde que foi lançado, alguns anos atrás. Mesmo que você não goste dos Beatles tanto quanto eu, saiba este é um daqueles livros que você não consegue largar de jeito nenhum, e quando acaba não esquece nunca. Não quero fazer nenhum spoiler, mas isso é meio que inevitável, então fica o aviso.
Enquanto os Beatles se tornavam uma obsessão musical, aos poucos Tony foi se especializando em diversas áreas, e assim aprendeu a fazer a promoção das músicas como ninguém, além de ter se tornado o pioneiro como diretor de clipes musicais da história. Ele ainda foi um caça talentos de novos cantores, cantoras e bandas nos bares da noite, depois que os Beatles resolveram entrar no ramo da produção musical com a criação da Apple Records.
Durante a sua carreira, Tony se envolveu com trilhas sonoras para cinema, mas ele também se aventurou no teatro, quando Brian adquiriu o clássico Saville Row. Foi lá que ele criou uma iluminação especial em tons de roxo para Jimi Hendrix, o que pode ter inspirado a magistral Purple Haze, ou não! Seu grande talento era saber como se relacionar com os seus ídolos, e assim Bramwell se tornou grande amigo de vários ídolos meus além dos Beatles, incluindo Jimi, Keith Moon do Who, além de Mick Jagger e Keith Richards dos Rolling Stones e muitos outros. Estamos falando de um homem que conheceu pessoalmente Buddy Holly e Elvis Presley!
Como já deu para perceber, este livro é uma montanha russa Helter Skelter com grandes emoções, incluindo trechos inusitados como o péssimo negócio mal feito por Epstein em que ele entrega 51% dos direitos sobre as músicas dos Beatles para Dick James enquanto fica com 9% para si próprio; as maluquices das fãs que faziam tudo pelos quatro de Liverpool; o momento em que os Beatles percebem que não podem mais tocar ao vivo em shows porque não conseguem sequer ouvir o som de retorno; e as insistentes investidas de Yoko Ono, que não deixou John em paz até conseguir a sua atenção exclusiva e em tempo integral.
Tony também fala bastante sobre seu chefe Brian Epstein, que apesar de algumas falhas foi um dos grandes responsáveis pelo estrondoso sucesso dos Beatles, e fala sobre o outro responsável, o grande mago George Martin, que se tornou praticamente um Beatle. Depois que Brian morreu, as coisas aconteceram rápido. Mesmo com o acordo desastrado com Dick James e outros ao longo do caminho, o dinheiro aos montes e era torrado na mesma intensidade. Apesar de ter sido um momento turbulento na vida de todos, também foi o mais criativo dos Beatles, de onde saíram os meus discos favoritos desta grande banda.
No livro, Bramwell mostra como nos últimos anos Paul McCartney tinha se tornado a força motora do grupo, e foi o único que se opôs a Allen Klein quando este resolveu usurpar o legado da Apple Records deixado com a morte de Brian Epstein. Com Yoko pressionando de um lado, Klein do outro e os amigos interesseiros em todas as demais partes dos Beatles, a separação parecia ser questão de tempo, mas os Beatles ainda poderiam ter gravado muitos outros discos, porque mantiveram uma relação de grandes amigos fraternais que praticamente não se deteriorou até os últimos momentos.
Só que as más companhias, as péssimas influências e infelizes escolhas de negócios que torravam fortunas cobraram o seu preço, e o sonho enfim acabou. Está tudo lá no livro, para o delírio e desespero dos fãs dos Beatles, passando pela viagem a Índia para visitar o Maharishi, até a gravação do White Album com direito a cama de Yoko Ono dentro do estúdio, Tony se lembra de tudo com todos os detalhes.
Os problemas com o disco Let it Be são públicos e notórios, tanto que ele foi o último disco a ser lançado, apesar de ter sido o penúltimo a ser gravado. Resumindo a ópera, Paul queria manter o som mais básico, e o produtor Phil Spector acabou fazendo algo muito mais complexo usando cordas e corais.
A gravação do último disco dos Beatles Abbey Road foi bem mais relaxada. Como todos sabiam o que ia acontecer, então aproveitaram para fazer o seu melhor. Apesar de venerar Sgt. Pepper’s e o White Album e os grandes clássicos da banda, tenho que dizer que Abbey Road é o meu disco favorito dos Beatles, o álbum definitivo pelo qual todos serão lembrados para sempre. Outra parte sensacional é a descrição do famoso show no telhado da Apple Records, em Londres, para o desespero da polícia local.
Depois da triste e inevitável separação dos Beatles em 1971 e até hoje, Tony esteve envolvido em tudo o que você imaginar, de colocar Paul McCartney para compor e cantar a empolgante música de abertura no filme 007 - Viva e Deixe Morrer, passando pelos Righteous Brothers na trilha de Ghost, pelo lançamento meteórico da carreira de Bruce Springsteen, e as magistrais trilhas sonoras de Carruagens de Fogo e Blade Runner compostas por Vangelis, entre muitas outras façanhas.
Esta coluna é especialmente dedicada a memória dos meus grandes ídolos John Lennon e George Harrison.


