De como sou bom de cama
E, aparentemente, não me orgulho disso. 
Não posso reclamar da criação que tive de minha mãe. Vaidosa, quando estávamos a caminho de algum compromisso que exigia saltos altos e eu saía correndo, deixando-a para trás, ela me chamava e dizia “meu filho, quando uma mulher usa salto alto ela precisa andar mais devagar. E o homem deve sempre acompanhar a mulher, para que ela se sinta segura”.
Estas e outras lições povoaram minha cabeça durante todo o meu amadurecimento e assim me tornei, sem falsa modéstia, um rapaz bem educado, daqueles de ser apontado pela mãe dos amigos, de causar irritação nas senhorinhas que não queriam meu lugar no ônibus [quantas vezes já ficamos em pé, eu e a distinta senhora, só de "birra"?] e coisas desse tipo.
Claro que, com o tempo, outras pessoas [e outras mulheres] receberam este tratamento, facilitando seleções de estágio, provas de segunda chamada na faculdade, conquistas de sogras e outros processos tão ou mais complicados.
Uma coisa, porém, eu nunca consegui resolver - e mesmo que minha mãe nunca tenha me dito nada a respeito disso, eu já deveria ter aprendido com a vida. Se, por algum acaso do destino, você precisar dividir um quarto comigo, saiba que eu vou sempre - sempre, sempre, sempre - dormir antes de você.
Quando na condição de namorado ou coisa parecida, era comum acordar com a piada pronta do “você me deixou falando sozinha ontem”. Piada para mim, claro, que já ouvira aquilo muitas vezes. Como explicar? Não sei, já que sou um dos grandes defensores do “durma quando morrer”.
Algo que talvez faça sentido agora é que, lá nos idos de 2004, uma amiga saída do curso de jornalismo da UFPI resolveu voltar para o Ceará dela. E como bons amigos, eu e ele não deixávamos de visitar a moça uma noite sequer, alongando papos até a madrugada. Isso quando, da casa dela, não rumávamos para outro canto.
Foram meses e meses de noites mal ou não dormidas, seguidas de manhãs de estágio e tardes de aulas. Ao fim do dia, tudo de novo. Até o dia em que descobri que, entre um papo e outro, eu poderia tirar um cochilo. Comecei com os sofás e poltronas da casa da amiga, segui para tapetes e por fim encontrei no chão da cozinha o melhor amigo.
Enquanto meus amigos conversavam, eu dava um tempo cochilando. Algumas vezes era só vigília, eu até participava da conversa. Outras vezes eu era acordado com o aviso de que era hora de ir para o próximo compromisso.
Mas o importante é que, depois de tantas provações e travesseiros peculiares, encontrar um bom colchão que me acolha é uma oferta perfeita demais para ser recusada. Ficam aqui as minhas desculpas.


