Mudar para sobreviver
Adotar novas rotinas pode ser o caminho mais curto para sobreviver no mundo corporativo. 
Na semana passada, minha coluna aqui no Yahoo!Posts foi sobre hábitos e como a capacidade de absorver as mudanças, que podem ser graduais ou verdadeiros rompimentos, e como na própria capacidade de saber lidar com as mudanças do segundo tipo, pode residir a própria felicidade. Quando portamos esta capacidade de absorção e adequação para o mundo corporativo, estamos falando da vida e morte de empresas, ou até mesmo indústrias.
E desde a semana passada o acumulo desta incapacidade de absorção e adequação por parte da indústria de entretenimento, principalmente as norte americanas de música e cinema, culminou em julgamento civil e criminal, movido pela promotoria de justiça sueca, somada às duas indústrias citadas, contra os administradores do site The Pirate Bay (TPB) e contra o datacenter em que ele está hospedado. Quem acompanha o Twitter, ou lê blogs de tecnologia no exterior deve ter, certamente, lido algo a respeito. Resumindo-se ao máximo, trata-se de um julgamento em que um lado acusa o outro da promoção de pirataria, pedindo prisão e punição financeira, enquanto o outro lado diz que não distribuiu arquivo nenhum, apenas prestou um serviço com a finalidade de permitir a sistematização na distribuição de arquivos legais, os torrents, mas que foi usado para a distribuição de arquivos que são ilegais em alguns países.
No tempo em que as duas foram as maiores forças do entretenimento, hoje a indústria dos jogos já as ultrapassa em alguns mercados, as duas criaram um intricado sistema de licenciamento que parece feito com a intenção de se criar dificuldades desnecessárias, talhando uma prática comercial que na melhor das hipóteses ignorou solenemente a possibilidade de que um dia as barreiras entre países seriam meramente geopolíticas, que a distribuição seria absurdamente facilitada pela tecnologia, e pior que isso, no começo da década de 1990, quando a internet começou sua popularização, continuou a persistir no erro em vez de procurar se adequar aos novos tempos.
Aliás, desde o final da década de 1970, quando algumas emissoras de televisão norte-americanas moveram ação contra o risco que os vídeos cassete Betamax da Sony representavam contra os direitos autorais, e perdeu, estas indústrias sempre que se moveram o fizeram em detrimento da experiência de consumo de quem efetivamente paga por seus produtos, ou em tentar empregar uma táticas de terror, que chegaram até mesmo a por uma mãe solteira no banco de réus por seus filhos terem, alegadamente, compartilhado arquivos musicais.
Não quero que isso pareça uma defesa da pirataria, pois não é. Mas estas indústrias conseguiram pôr-se em uma situação de perde ou perde. Primeiro porque ao tentar empregar a tática de terror em um país mais liberal que seu próprio, está correndo o sério risco de ver as práticas de seu grande inimigo, serem declaradas legais, criando um abrigo legal que certamente levaria a uma onda de crescimento do compartilhamento de arquivos. Ou, ganham o julgamento e colocam-se na posição de confrontar milhares de pessoas, algumas até, que apóiam o The Pirate Bay, não por si, mas por conta de seus adversários.
A luta contra a pirataria, da forma como vem sendo travada é uma luta perdida. Enquanto não houver a percepção de que tecnologias como o Bit Torrent podem ser utilizada para baratear seu modo de distribuição, e conseqüentemente o custo final, enquanto não houver a percepção de que ao se portar como uma opressora é um erro crasso, mesmo que a reclamação que gera a perseguição da sanção tenha razão de ser, enquanto não houver a percepção de que não se luta contra um indivíduo, mas contra milhões de pessoas com uma capacidade incomum de mobilização, a luta só tende a ir de mal a pior.
Hélio Gracie, que faleceu recentemente, criou uma das lutas mais efetivas do mundo, o Jiu Jitsu Brasileiro, baseado unicamente na idéia de usar a força do inimigo ao seu favor, adequando a luta, graciosamente, à sua necessidade. No caso aqui, a imensa maioria dos inimigos, é composta de potenciais clientes, é só descobrir como usar a força que eles têm.


