Pela não necessidade de um novo V
Em 1605 um grupo de ingleses conspirou para matar seu rei, Jaime I
, bem como explodir o parlamento com todos seus membros dentro, isso aconteceria no dia 5 de novembro daquele ano. É baseado nesta passagem, principalmente no soldado Guy Fawkes que seria o responsável por explodir o local, que Alan Moore, o mesmo criador de Watchmen, o filme mais falado do momento, criou uma graphic novel chamada ?V de Vingança?, que foi adaptada para o cinema alguns anos atrás pelos irmãos Wachowski, os mesmo da trilogia Matrix.
No filme, que se passa na Inglaterra de um tempo futuro, um galante terrorista chamado simplesmente de ?V? toma para si a missão de insuflar seu povo e afastar a apatia de uma população que aceita pacificamente a repressão de um estado policial, daqueles que têm toque de recolher. ?V? termina por ser retratado como um herói terrorista, o que trouxe polêmica à um mundo por 11 de setembro. ?V? é um anti-herói que bombas para literalmente acordar uma população letárgica e fazê-los defender seus próprios interesses, suas próprias liberdades.
Já faz algum tempo que eu enxergo na Inglaterra futura de Allan Moore, um pouco do Brasil de hoje. Se não temos lei marcial que solta o toque de recolher, temos um poder paralelo composto de marginais que a cada dia que passa está mais forte, mais armado, e o que mais tem me impressionado nos últimos tempos, mais destemido. Lembro do absurdo que foi o roubo das armas de um arsenal do Exército no Rio de Janeiro, falou-se muito à época da ousadia dos assaltantes, mas como tudo no Brasil, ficou no passado e caiu na banalidade, e esta semana outros bandidos, em ocasiões distintas, assaltaram um batalhão do exercito, uma academia de polícia e um tribunal de justiça, nos três casos em busca de armas.
Muito se fala que o problema da criminalidade no Brasil é uma questão social, como se a pobreza fosse em si uma desculpa aceitável para se roubar, matar. Durante muito tempo eu trabalhei em uma atividade que envolvia lidar com pessoas que passavam bem abaixo da linha de pobreza, e não tenho um quê a dizer a respeito da honestidade destas pessoas, se for de se dizer algo, é que eles são proporcionalmente mais honestos que classes mais altas da população. Conheci pessoas que ?assinavam? o nome com uma almofada de carimbo, pessoas que faziam qualquer bico que surgisse para não deixar a família à míngua, e como disse, eram pessoas honestas e de boa índole.
O problema da criminalidade de espalha sim fortemente pela base da pirâmide, mas não por conta do fator pobreza, e sim pela ausência de educação formal somada ao péssimo exemplo de nossa classe política. Não digo que todos os políticos e asseclas são criminosos ou bandidos, apenas a esmagadora maioria deles, de todos partidos, sem exceção. Vivemos em um país em que a ideologia é completamente subjugada pela gana de poder e dinheiro, cargos são moeda de troca e MUITA gente cria dificuldade para vender facilidade, leia-se, comer propina.
O fator social a ser observado aqui não é a pobreza, mas a da marginalidade imposta pela ausência da ação do estado nos três pilares básicos de qualquer sociedade: saúde, educação e segurança. Decorrente de uma classe política que move quase que unicamente pela possibilidade de arregimentar propina, e não em prol do bem estar da população.
Nossos políticos, tal como nossos bandidos, não têm mais medo nem vergonha de roubar, impera o desmando e a terra do sem lei. Hoje temos uma média diária superior a 130 assassinatos, mais de 130 vidas ceifadas pela violência. Faz-se urgentemente necessário que algo seja feito, faz-se necessário que o medo de cometer crimes, normais ou do ?colarinho branco?, se faça presente.
Só esperemos que para isso, não seja necessário um ?V?.


