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O empresário, blogueiro e designer Nick Ellis é o criador do Digital Drops e do AppStore Blog. Além disso ele também é editor do MeioBit, escreve no Blog de Brinquedo e tem muitos outros blogs e projetos prestes a sair do forno.

A releitura do clássico dos HQ para nova geração

16, março de 2009, 11:35 | Colunas

A graphic novel Watchmen não é simplesmente uma história em quadrinhos qualquer , é algo que mexe com o imaginário e com o inconsciente das pessoas há mais de 23 anos. A união do texto genial e profundo de Alan Moore com o estilo inspirado de Dave Gibbons criou o maior clássico de todos os tempos no mundo dos quadrinhos, pelo menos na minha opinião. E não, eu não estou exagerando nem um pouco.

A química entre os ingleses Dave e Alan começou na revista 2000 AD quando os dois trabalharam juntos na série Shocking Futures, que eu guardo na minha estante até hoje como um verdadeiro tesouro. Toda desenhada em preto e branco, a 2000 AD foi o tubo de ensaios do roteirista e do desenhista, que mais tarde alcançariam o seu ápice criativo em Watchmen.

A história se passa em 1985 em um universo hipotético no qual Richard Nixon nunca renunciou e é o presidente dos Estados Unidos, reeleito para um terceiro mandato como um autêntico ditador da América do Sul. Somos jogados pela janela junto com o polêmico e contraditório Comediante (The Comedian), um soldado que faz tudo o que for preciso para garantir seu ponto de vista, muitas vezes fascista, que se confunde com o do presidente Nixon, do qual salvou do caso Watergate, dando uma lição fatal em Bernstein e Woodward.

Seus personagens principais são Rorschach, Dr. Manhattan, Ozymandias, Espectral (Silk Spectre II) e Coruja Noturna (Night Owl II), heróis que estão em franca decadência, tudo graças ao Ato Keene, instituído em 1977, e que proibiu o uso de máscaras para combater o crime. Adrian Veidt (Ozymandias) foi o único herói a conseguir capitalizar o sucesso do seu personagem em lucros para a sua empresa, e se manter aceito pela sociedade através de seus brinquedos e perfumes.

O grande mistério da história é saber quem seria tão poderoso a ponto de matar um personagem tão forte quanto o Comediante, e quais seriam as razões por trás deste assassinato. Para resolver esta questão ninguém melhor do que o único herói que não aderiu ao veto as máscaras e que continuou agindo por convicção contra todas as formas de crime, Rorschach.

Todo mundo que leu Watchmen, seja nos anos 80, 90 ou até mesmo recentemente, com certeza terminou a leitura imaginando que esta história daria um grande filme, mas a verdade é que a quantidade de informação desta obra é tão grande seria quase impossível mostrar metade do que acontece na trama em menos de 4 horas. Muitos anos antes de Watchmen invadir os cinemas, eu já passava horas discutindo com meus amigos sobre os bilhões de detalhes que compõem este verdadeiro universo imaginado por Alan Moore, especialmente a conclusão, que é nada menos do que genial.

Antes de falar sobre o filme, queria abrir um parênteses. É que a experiência de ler uma obra como Watchmen hoje em dia é completamente diferente do que foi ler nos anos 80. Como outros garotos da minha geração, eu cresci apavorado com a perspectiva de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, e isso hoje em dia pode ser difícil de entender para quem não viveu naqueles dias. Watchmen influenciou tantas obras nos quadrinhos e no cinema, que fica difícil para quem não leu entender a importância desta obra. Tudo isso muda bastante a experiência de quem lê a história, ou assiste ao filme.

Outra coisa que aconteceu nos últimos anos é que os filmes de Super-Heróis evoluíram tanto que mudaram a cabeça das pessoas a respeito do assunto. Depois de criar alguns filmes de péssima qualidade, Hollywood finalmente parece ter acertado a mão, e esta última safra trouxe várias novidades interessantes como o Incrível Hulk e o Homem de Ferro da Marvel, e o Dark Knight da DC Comics, que apesar de não ter nada a ver com a obra de mesmo nome de Frank Miller, consegue ser o melhor filme do Batman feito até hoje, e traz Heath Ledger interpretando o Coringa definitivo de forma brilhante.

Desde que foi originalmente lançado entre 1986 e 1987, vários produtores, diretores e roteiristas tentaram adaptar Watchmen para a tela grande. O diretor Zack Snyder, recém saído do sucesso incontestável de público e crítica de 300, recebeu a proposta de dirigir a adaptação, e após recusar de imediato, pensou com mais calma e resolveu encarar o desafio e também a ira dos fãs, que não admitiam mudanças no roteiro intocável de Alan Moore.

Zack é considerado um diretor que se mantém fiel aos textos originais, sem mudar muitas coisas, e conseguiu alcançar um resultado criando um filme surpreendente, que embora não seja tão perfeito e genial quanto a obra de Alan Moore, é uma bela homenagem a todos os fãs de Watchmen e uma boa introdução para quem não conhecia a história em quadrinhos.

A abertura do filme merece todos os elogios, e é uma das mais incríveis que eu já vi na minha vida. Em apenas alguns minutos, esta pequena verdadeira obra de arte mostra vários trechos de Watchmen que não caberiam dentro do filme, como todo o arco dos Minutemen (os heróis mascarados originais do enredo), e também a interferência política de personagens como o Dr. Manhattan e o Comediante na política e na história do mundo. A escolha da trilha sonora de The Times They Are A-Changin’ do Bob Dylan não poderia ser mais adequada.

A primeira impressão que tive assistindo ao filme é que Snyder prestou uma grande homenagem aos fãs da história em quadrinhos. É claro que existem problemas, como algumas mudanças inexplicáveis no roteiro que quase comprometem o resultado final, e muitas cenas cortadas na edição, mas mesmo assim Watchmen consegue ser fiel ao material original, e passa muito bem a essência da narrativa em suas 2 horas e quarenta minutos de duração. Nos quadrinhos, Watchmen é uma obra de reflexão, e não de ação, mas no filme a história é outra. É claro que acontece muita pancadaria ao longo da história, e o diretor Zack Snyder deu todo o destaque a estas cenas, mas isso é algo totalmente compreensível para um filme como este fazer sucesso nos dias de hoje.

Voltando a obra de Alan Moore, a estrutura de Watchmen é dividida em 12 capítulos, cada um dedicado a um dos personagens principais, que simbolizam as horas do Doomsday Clock, e que eu esperava ansiosamente nas bancas nos anos 80, quando li a obra pela primeira vez. A grande diferença de Watchmen para outras obras de super-heróis é a riqueza de detalhes, e a forma com que Alan Moore cria várias histórias dentro da história, todas elas planejadas para deixar o leitor cada vez mais envolvido com a trama até a apoteose final.

A brutal história em quadrinhos Contos do Cargueiro Negro (Tales of the Black Freighter, que vai virar uma animação a ser lançada em DVD), é lida por um garoto na banca de jornais frequentada por Rorschach e faz uma ligação com todos os personagens. Nas páginas da biografia de Hollis Mason,  um ex-policial que se tornou o Coruja Noturna original nos anos 50, conhecemos os Minutemen originais, que no filme praticamente só aparecem na abertura. Intercalados com a história também encontramos artigos escritos pelos personagens, matérias de jornal, dossiês sobre o Dr. Manhattan, e muito mais, e todo este material completa a trama principal e enriquece a experiência de leitura de Watchmen.

Vamos falar mais um pouco sobre o meu personagem favorito de toda a história, Rorschach. Através de flashbacks entendemos um pouco mais sobre este personagem, que é o mais humano de todos. Após passar por uma terrível experiência, Rorschach percebe que a sua versão mascarada é a sua verdadeira personalidade, e Walter Kovacs é o seu disfarce entre os humanos.

O espírito de Rorschach é a justiça custe o que custar, a comparação com o meu super-herói favorito, é inevitável, afinal os paralelos de Walter com o Batman começam em traumas de infância, ainda que diferentes um do outro. E eu tenho certeza que Bruce Wayne pensaria da mesma forma. O ator que interpreta Rorschach é Jackie Earle Haley, que encarna este justiceiro de forma simplesmente perfeita. Eu não esperava menos de um ator que já foi indicado ao Oscar em 2007 pelo filme Pecados Íntimos (Little Children). Outro que tem uma atuação excelente é Jeffrey Dean Morgan, que interpreta o Comediante de forma muito intensa.

Infelizmente não posso dizer o mesmo de Matthew Goode, que interpreta Ozymandias / Adrian Veidt, o homem mais inteligente do mundo e um dos personagens mais importantes da trama, porque o ator é o mais fraco de todo o elenco. Para mim Veidt deveria ser interpretado por alguém como Brad Pitt, mas a decisão da produção infelizmente foi optar por atores menos conhecidos.

Billy Crudup está ótimo na pele azul do meu outro personagem favorito, Jon Osterman, que depois de um acidente no laboratório se torna o Dr. Manhattan, o único ser super poderoso de toda a história. Jon é um personagem incrível e essencial para o enredo, e protagoniza várias das melhores cenas de Watchmen, incluindo uma que misteriosamente ficou fora do filme. As suas cenas na guerra do Vietnã ao lado do Comediante são de arrepiar.

Infelizmente o erro no final do filme é imperdoável para os fãs. Sem entrar em detalhes para não estragar a experiência de quem ainda não viu o filme, trata-se de uma mudança radical no roteiro que coloca a culpa em um dos personagens que nada tinha a ver com o caso, e que torna o objetivo final do vilão em algo inverossímil, em uma série de acontecimentos sem sentido. A razão da pesquisa genética de um dos personagens principais também fica sem explicação no final do filme, o que é uma pena.

Com todos os seus defeitos e qualidades, Watchmen não é o melhor filme de super-heróis que eu já vi, mas com certeza é um dos melhores. Ele é altamente recomendável tanto para os admiradores mais fanáticos dos quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons como eu, quanto para quem nunca tinha ouvido falar na história. Na minha opinião, o maior mérito do filme é apresentar Watchmen para uma nova geração de leitores. E se você por acaso ainda não leu esta verdadeira obra prima dos quadrinhos e também não foi ao cinema, então você não sabe o que está perdendo.