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Alexandre Inagaki_

Editor do blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso, finalista dos prêmios iBest (2003, 2004, 2005), vencedor do prêmio internacional The BOBs, promovido pelo portal alemão Deutsche Welle em 2007, e citado em matéria de capa da revista Época como um dos oito 'blogs que ditam o rumo da internet nacional'.

Woody Allen: o escritor, o tubarão, o alce e os ovos

16, março de 2009, 18:26 | Colunas

O personagem e a personalidade do homem que mudou o humor(?).

O cineasta, escritor, ator, comediante e músico novaiorquino Allen Stewart Konigsberg, do alto de seus 73 anos de idade, continua em plena forma artística. Desde 1982, mantém a impressionante média de roteirizar e dirigir pelo menos um longa-metragem por ano, em uma carreira de 39 filmes que inclui diversas obras-primas como Annie Hall (1977), Hannah e Suas Irmãs (1986) e Desconstruindo Harry (1997).

Ao longo dos anos, já foi merecidamente laureado com 4 estatuetas do Oscar (melhor filme, direção e melhor roteiro original por Annie Hall, e melhor roteiro original por Hannah e Suas Irmãs), 9 Baftas (incluindo o de melhor filme em 1985, por A Rosa Púrpura do Cairo), 2 prêmios César de filme estrangeiro (por Manhattan, de 1979, e A Rosa Púrpura do Cairo), o Goya de melhor filme europeu (por Match Point, de 2005), 4 melhores roteiros originais do ano segundo o Writers Guild of America (por Annie Hall, Broadway Danny Rose, de 1984, Hannah e Suas Irmãs e Crimes e Pecados, de 1990). Mas o que poucos sabem é que, além dos prêmios de sua carreira cinematográfica, Allen também já ganhou o O. Henry Award, dado anualmente aos melhores contos publicados nos EUA e Canadá. Este prêmio literário, que já foi concedido a escritores do naipe de William Faulkner, Flannery O’Connor, John Updike, Saul Bellow e Raymond Carver, foi dado a Woody em 1978, pelo conto “O Caso Kugelmass”, que faz parte do livro Que Loucura!.

Volta e meia recorro a alguma citação de Woody Allen, autor de aforismos e diálogos antológicos, quando escrevo algum texto. Pudera: o marido de Soon-Yi Previn é mestre na arte de encarar os dilemas amorosos, metafísicos e sexuais com tiradas desconcertantes de bom humor. Jamais me esqueço, por exemplo, de uma sequência de Hannah e Suas Irmãs na qual seu alterego pensava em cometer suicídio até entrar em uma sala de cinema e recuperar o sentido da vida ao assistir a um filme dos Irmãos Marx, concluindo:

- E se o pior for verdade mesmo? E se Deus não existir? E se a gente viver uma vez só e ponto? Oras, você não quer fazer parte da experiência? Você sabe, ora diabos, nem tudo é uma droga. Eu tenho que parar de atormentar minha existência procurando respostas que não vou conseguir, e aproveitar a vida enquanto ela está aí. Depois? quem sabe? Talvez exista realmente algo, ninguém sabe realmente. Sim, eu sei que o ?talvez? é uma corda frágil para que a gente se agarre nela com unhas e dentes, mas é a melhor que nós temos, não? E então voltei à minha poltrona, e comecei a valorizar minha própria vida.

Embora eu aprecie sem exceção todas as fases de suas atividades como ator, diretor e roteirista, críticos classificam a carreira cinematográfica de Woody Allen em várias etapas. A primeira, por exemplo, é considerada a fase em que o ex-marido da Louise Lasser limitava-se a elencar piadas atrás de piadas, sem maiores pretensões intelectuais. Um bom exemplo é a cena a seguir, de Bananas (1971), em que o personagem de Allen leva um pé na bunda da namorada, motivo que depois o levaria a virar ditador de uma republiqueta latino-americana.

Mesmo em sua fase “descompromissada”, salta aos olhos a qualidade dos diálogos escritos por Allen. Vide Sonhos de um Sedutor (1972), adaptação cinematográfica de uma peça de teatro escrita pelo versátil novaiorquino. Apesar de ter sido dirigido por Herbert Ross, o filme é um deleite para qualquer cinéfilo, em especial pelo fato de o protagonista ter como conselheiro amoroso Rick Blaine, o personagem interpretado por Humphrey Bogart em Casablanca (1942). Pertence a esse filme, cujo título original é Play It Again, Sam, um de meus diálogos cinematográficos prediletos:

- Este quadro é de Jackson Pollock, não é?
- Sim.
- O que ele representa para você?
- Ele representa a negatividade do universo. O abominável e solitário vazio da existência. O Nada. A condição do Homem forçado a viver em uma árida eternidade desprovida de Deus, como uma breve chama piscando no imenso vácuo com nada a não ser lixo, horror e degradação, presa em uma inútil camisa-de-força em meio aos cosmos negro e absurdo.
- O que você pretende fazer sábado à noite?
- Cometer suicídio.
- Ahn? E na sexta-feira?

A crítica é unânime em dizer que o grande salto qualitativo da carreira de Woody Allen foi Annie Hall, obra-prima que, em uma das mais infelizes traduções de títulos de filmes de todos os tempos, recebeu no Brasil o título de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. O filme narra a história de Alvy Singer, escritor que descreve o começo, meio e fim da história de amor que viveu com Annie Hall, uma aspirante a cantora interpretada por Diane Keaton. Pertence a este filme uma das metáforas mais expressivas e repetidas de boca em boca desde então:

- Um relacionamento, penso eu, é como um tubarão. Ele tem que seguir em frente constantemente, caso contrário morre. E eu acho que o que temos em nossas mãos é um tubarão morto.

Tubarões, assim como relacionamentos e blogs, não podem parar de se mover; caso contrário, correm o risco de morrer asfixiados. Também é assim com a obra de Allen, que, ao manter a média de lançar ao menos um filme por ano, parece que não se permite o luxo de ficar parado. Em Annie Hall, Woody não se atém a contar suas engenhosas piadas; seus personagens digladiam-se com dilemas existenciais e angústias pessoais ao mesmo tempo que enfrentam as situações do dia-a-dia com o humor afiado e apurado por alguém que trabalhou anos como comediante de stand-up. Graças ao YouTube, é possível garimpar pérolas dessa fase pré-cinematográfica de Allen, como um monólogo que ele apresentou na TV inglesa em 1965.

Após a consagração artística com Annie Hall, o ex-marido de Mia Farrow dirigiu dramas bergmanianos como Interiores (1978), filmes fortemente inspirados pela literatura russa (como Hannah e Suas Irmãs, que não omite a influência da peça Três Irmãs, de Anton Tchekov, ou Crimes e Pecados, o trabalho mais dostoievskiano de Allen), pseudo-documentários (Zelig, de 1983) e experimentações metalinguísticas (vide os excepcionais A Rosa Púrpura do Cairo e Desconstruindo Harry). Porém, apesar de ter legado tantos longas bacanas (e de ainda conseguir manter alto nível artístico, como prova o seu filme mais recente, Vicky Cristina Barcelona, de 2008), não posso deixar de destacar a obra que mais marcou a minha vida de cinéfilo. Todos aqueles que já viveram um grande amor se identificam, de alguma maneira, com o antológico final de Annie Hall. E em especial com o belo monólogo no qual, após rever a ex-namorada, Allen faz uma análise de como foi bom ter vivido a loucura lúcida daquele relacionamento.

Já estava ficando tarde, nós dois tínhamos que ir, mas foi muito bom voltar a encontrar Annie. Me dei conta de como ela era maravilhosa, e de como foi divertido conhecê-la. E me lembrei de uma velha piada. Um cara vai ao psiquiatra e diz: “Doutor, meu irmão é maluco, ele pensa que é um frango”. O médico responde: “Mas por que você não o interna?.” E o sujeito responde: “Eu poderia fazer isso, mas? eu preciso dos ovos”. Bem, acho que é mais ou menos assim que eu vejo os relacionamentos, sabe? Totalmente irracionais, loucos e absurdos, mas? eu acho que continuamos insistindo neles porque a maioria de nós precisa dos ovos.