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Alexandre Inagaki_

Editor do blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso, finalista dos prêmios iBest (2003, 2004, 2005), vencedor do prêmio internacional The BOBs, promovido pelo portal alemão Deutsche Welle em 2007, e citado em matéria de capa da revista Época como um dos oito 'blogs que ditam o rumo da internet nacional'.

Como iniciar um texto?

18, agosto de 2008, 12:29 | Colunas

“O primeiro passo, o mais árduo e sofrido de todos. Como começar? Esta é sempre a dúvida que me inquieta. ‘Entre o sim e o não, existem inúmeros talvez’, sentenciou mestre Cortázar. Mas permanece a questão: como começar uma página do nada, como desvirginar este branco na tela e em minha cabeça?”.

O parágrafo acima, assumidamente metalingüístico, foi meu pontapé inicial no mundo dos blogs. Publiquei-o no dia 20 de dezembro de 2000, no primeiro blog do qual participei: um coletivo intitulado Logopéia, idealizado pela minha amiga Tatiana “Sweethell” Leão, e na qual escrevi na companhia de mais três amigos: Suzi Hong, Ricardo Sabbag e Ian Black. O nome foi inspirado por uma definição que o poeta americano Ezra Pound deu para logopéia: “dança do intelecto entre as palavras”. Meu blog em “carreira solo”, o Pensar Enlouquece, só surgiria em agosto de 2002. De lá pra cá, não deixei de escrever na internet.

Quando sentei na frente do computador para escrever mais uma coluna para o Yahoo! Posts e fui acometido pelo famoso “writer’s block”, o clássico branco que dá na cabeça do escritor e faz com que ele, se pressionado pelo deadline para a entrega de um artigo, comece a balbuciar frases desconexas na esperança de que elas façam sentido de alguma maneira, lembrei desse meu primeiro post e fiquei aliviado: ufa, havia encontrado um mote para esta coluna! Mas o fato é que, brincadeiras à parte, a constatação que fiz há quase oito anos permanece válida: a primeira frase, aquela que catalisa o processo de produção de um texto, é a mais sofrida de ser escrita. Porque um bom artigo já deve dizer a que veio logo na sua abertura, a fim de que a atenção do leitor seja conquistada tal qual o olhar arrebatador de uma mulher. Caso contrário, ele se dispersa e foge para não mais voltar, esquivo feito sabonete molhado nas mãos. Ainda mais aqui na internet, este território quase infinito de outros sites que se oferecem fáceis, lassas e lânguidas, ao alcance de um mero clique.

A arte de começar um texto em grande estilo exige engenho, depuração e a consciência de se saber aonde você quer chegar, durante o trajeto entre a letra maiúscula do parágrafo de abertura e o definitivo ponto final. Por essas e outras, sou admirador daqueles que dominam o ofício de pegar o leitor pelo colarinho e domá-lo munido de palavras impactantes. É o caso, por exemplo, do escritor português Miguel Esteves Cardoso. Além de ter redigido um dos melhores começos de romances de todos os tempos, ainda batizou sua obra com um nome sensacional: “O Amor é Fodido”. Confiram o seu parágrafo de abertura:

“Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. Merecias uma morte violenta. Se eu soubesse, não te tinha deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não sentiste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do que tu. Devias ter sofrido. Porque eras má. Eu pensava que não. Enganaste-me. Alguma vez pensaste no que isso representou na minha vida miserável? Agora apetece-me assassinar-te de verdade. É indecente que já estejas morta”.

Não é um parágrafo de se invejar profundamente? Um dia preciso conceber uma obra dessas, com um título e um começo de livro de fazerem aspirantes a escritor babarem furiosamente de admiração inspiradamente invejosa.

Outro dia a Rosana Hermann, apresentadora de TV e blogueira das mais profícuas, resgatou em seu Twitter o primeiro post que escreveu na vida. Rosana iniciou suas atividades na blogosfera um dia antes de mim, em 19 de dezembro de 2000, em grande estilo:

“Depois de inúmeras pesquisas em campo, especialmente santo, descobrimos que morrer é a pior coisa que pode acontecer na vida. Realmente, a morte é o fim da picada. Por isso, preparei meu próprio epitáfio, para que eu possa realmente descansar em paz, sem ficar preocupada que algum idiota vai redigir um texto sob o qual terei que repousar eternamente. Convenhamos, para quem passou a vida dedicando-se ao texto, nada poderia ser mais desagradável do que ter um outro autor assinando sua derradeira obra. Assim, aviso a todos que, quando eu for encontrar com a grama pela raiz, que por favor, escrevam sobre a minha lápide este último desabafo: -Era SÓ o que me FALTAVA!!”

Trocadilhos à parte, Rosana escreveu um primeiro post matador. Mas, parafraseando um episódio clássico do Pica-Pau, em todos esses anos trabalhando nesta indústria vital posso afirmar que ainda não encontrei um post inicial tão bom quanto o do blog português Gato Fedorento, escrito por um grupo de quatro humoristas que depois migrariam para a TV, deixando seu blog de lado. Eis o definitivo cartão de visitas de nossos colegas d’além-mar:

“Gato Fedorento é, como o próprio nome indica, um blog de opiniões e de polêmica. Aliás, a polêmica começa logo nesta apresentação porque, dos quatro autores do Gato Fedorento, um acha que o blog não devia ter polêmica, outro defende que não devia ter opiniões e outro entende que não devia ser um blog, mas sim um espectáculo de marionetas. O quarto não quis dar a sua opinião, atitude que os outros três consideraram polêmica. À partida, este blog apresenta-se com ideias claras e com um objectivo preciso. Infelizmente, perdemos o papel onde tínhamos isso apontado. Mas eram, de facto, ideias mesmo muito claras, e o objectivo, esse, era particularmente preciso. Aqui serão abordados diversos temas, com destaque para estes: literatura, política, seios femininos, cinema, a carreira de Tonicha (em especial o período que medeia entre 1977 e 1981) e futebol”.